terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Incertezas
Eis-me aqui
como um grão de milho
que fecundo sob o ventre da terra
espera a chuva e o sol para eclodir,
mas sem ter a certeza que será possível florir.
Eis-me aqui
como um passarinho amedrontado
que tange o ninho querendo voar,
mas pequenino tem medo de arriscar.
Eis-me aqui
como um tolo querendo o mundo mudar
revendo verdades, construindo expectativas
que nem sempre vão nos amparar.
Eis-me aqui
de mãos dada com o tempo,
tempo atroz, nuvens negras
que corrompem nossas almas
e nos devasta sem respeitar a regras.
Eis-me aqui
que sob as trevas pereci,
e das cinzas renasci,
sou fênix, sou frenesi,
sou coisa nenhuma...
A difícil "arte" de ser canhoto
Num documentário da BBC Horizon, o renomado neurologista Norman Geschwind apresenta uma interessante teoria sobre lateralidade, associando-a à testosterona.
Segundo o cientista, precursor da Neurologia Comportamental surgida no início da década de 1970, uma excessiva produção do hormônio masculino retardaria o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro, fazendo com que o direito torne-se dominante. E, como o controle dos lados do corpo é invertido (o hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo e vice-versa), o indivíduo acaba tornando-se um canhoto. Isso explicaria, por exemplo, porque existem mais canhotos do que canhotas.
Em seu interessante artigo, Left-handedness: Association with immune disease, migraine and developmental learning disorders, Geschwind associa, ainda, o menor desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro a alguns consequentes contratempos. Canhotos teriam, por exemplo, maiores chances de desenvolver doenças relacionadas ao sistema imunológico (alergias e alguns tipos de artrite reumatóide), enxaqueca e problemas de aprendizado envolvendo a linguagem (dislexia e gagueira†).
Em oposição a esta teoria biológica, há os que defendem causas ambientais. Em seu livro The Left-Hander Syndrome, o Dr. Stanley Coren diz acreditar que todos somos destros e que algum problema na gestação ou no parto seria responsável pela troca do lado dominante.
Recentemente identificou-se, ainda, um gene associado à probabilidade de uma pessoa ser canhota, embora estime-se que a chance de pais canhotos terem um filho idem seja da ordem de 26%. Desgraçadamente o mesmo gene parece estar ligado, também, a maiores chances de a pessoa desenvolver esquizofrenia - o que explicaria a alta incidência de canhotos com esta patologia.
Fato é que há muitas lendas envolvendo os canhotos, desde a Idade Média onde eles eram considerados bruxos e sofriam as calorosas consequências de sua "preferência" pela parte esquerda do corpo. Até recentemente, muitos canhotos eram forçados a abandonar tal inclinação para se adaptar artificialmente ao mundo dos destros. Até mesmo os termos usados para descrever um canhoto são pejorativos na maioria dos idiomas, reforçando o caráter sinistro (com trocadilho, por favor) com que sempre foram encarados. Não à toa, destreza (no sentido de habilidade) vem de destro...
A maior parte das generalizações que se faz não tem, contudo, qualquer base científica. Tanto é que na eventualidade de uma lesão em algum hemisfério cerebral, o lado não afetado normalmente assume as funções prejudicadas. O fato de haver alguma separação ou especialização lateral serve para multiplicar as possibilidades do cérebro, permitindo maior diversificação, em vez de redundância. Tudo o que a ciência conseguiu mostrar até agora é que ninguém é totalmente inclinado para um único lado.
Que lado faz o quê?
A lateralidade fica evidente em algumas preferências como a mão ou pé mais usados estendendo-se, inclusive, ao olho ou ouvido preferidos. Mas para atividades cognitivas não há regras fixas. Enquanto que 95% dos destros têm suas funções de linguagem localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro, para os canhotos esta proporção fica um pouco acima da metade e aproximadamente um quarto dos canhotos processa a linguagem em ambos os lados. Ainda assim, isso difere de acordo com funções de linguagem específicas, como gramática e vocabulário.
Por outro lado, algumas evidências científicas sustentam a localização do processamento de estímulos visuais e sonoros no lado direito do cérebro, bem como raciocínios ligados à percepção espacial (o que explica a grande incidência de arquitetos canhotos e o sucesso de tenistas canhotos).
Outros experimentos mostram, também, um melhor processamento de novas situações pelo lado direito do cérebro, enquanto que o esquerdo lida particularmente bem com atividades mais corriqueiras.
Algumas especulações são feitas, ainda, tentando relacionar o sucesso (ou a falta dele) à preferência pelo lado do corpo, mas nada de conclusivo foi apontado até então. De um lado, uma pesquisa da década de 1980 mostrou prevalências compatíveis de canhotos tanto nos 15% melhores alunos quanto nos 15% piores alunos de uma Universidade americana, indicando a ausência de diferenças intelectuais significativas.
Mas um recente estudo de Ruebeck, Harrington Jr. e Moffitt (Handedness and Earnings, 2006) mostrou que canhotos com formação universitária ganham aproximadamente 15% mais que seus pares destros. Ainda, se a formação acadêmica for mais elevada, esta diferença pode subir para 26% - embora esta diferença valha apenas para os homens.
Um estudo de Charlotte Fauriet e Michel Raymond (Universidade de Montpellier, na França) lança, contudo, a hipótese de que por uma natural vantagem nos combates físicos (o destro tem dificuldade em antecipar os golpes de um canhoto), os canhotos estariam mais associados à violência. Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva entre as taxas de homicídio e a porcentagem de canhotos em alguns países. Isto é: quanto mais canhotos no país, maior a taxa de homicídio.
Claro que uma correlação destas não significa, necessariamente, causalidade. Ou seja, embora dois fatos ocorram juntos frequentemente, não significa que um seja a causa do outro. Os próprios Fauriet e Raymond argumentam que os canhotos não são mais violentos - eles apenas levam vantagem quando brigam.
Evidências científicas à parte, a verdade é que o canhoto vive num mundo que não é feito para ele. Atividades corriqueiras para um destro podem se transformar em problemas praticamente insolúveis para quem precisa usar a mão esquerda.
Isto ocorre porque a maioria dos instrumentos cotidianos favorecem o uso da mão direita - algo que muitos destros nem sequer se dão conta. Um ótimo exemplo disso é a tesoura. Quando um canhoto segura uma tesoura com a mão esquerda, ele força suas lâminas para fora - e não para dentro, como um destro - dificultando o corte. Além disso, o canhoto não enxerga o que está cortando - o que pode ser realmente perigoso...
Pense, ainda, em uma régua. Para o destro é muito simples e natural traçar uma reta da esquerda para a direita, mas para o canhoto isso significa passar uma mão por cima da outra - o que não é nada prático. Outros exemplos pitorescos são o saca-rolhas, apontador de lápis, carteiras escolares, teclado numérico (fica do lado direito), caderno espiral (a mão que escreve fica em cima da armação de arame), botões da camisa, armas de fogo (a trava do gatilho é do lado direito, assim como a alavanca de liberação do pente de munição), câmeras fotográficas, violões etc.
A consequência disto é que o canhoto precisa encontrar meios de superar tais dificuldades e isto pode levá-lo a desenvolver uma maior capacidade de adaptação a novas situações. Minha teoria - ainda não submetida aos crivos da ciência - é que para as atividades que um canhoto nunca realizou ele deve fazê-las como um destro. Se o canhoto nunca tocou violão na vida, por que inverter a posição do instrumento?
Afinal, a coordenação e o ritmo necessários são resultados de uma habilidade motora fina que ele nunca treinou. (Provavelmente o canhoto Eric Clapton pensou assim, ao contrário de Jimi Hendrix e Paul McCartney.) O mesmo vale para o abridor de latas: por que segurá-lo com a mão esquerda? Ainda assim, para quem insiste em fazê-lo, há lojas especializadas em produtos para canhotos, como a Anything Left-Handed.
Outra curiosidade que observo é que quando uma pessoa identifica um canhoto, quase sempre também é um canhoto. Destros dificilmente prestam atenção nisso. Aliás, destros raramente percebem os canhotos.
Canhotos famosos
Políticos e estadistas: Alexandre o Grande, Napoleão Bonaparte, Benjamin Franklin, Fidel Castro, Gandhi, Bill Clinton, e Barack Obama.
Artistas e escritores: Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Raphael, Beethoven, Mark Twain, Friedrich Nietzsche, Machado de Assis, Tom Cruise, Robert De Niro, David Letterman, Jay Leno, Kurt Cobain, Paul Simon, Steve McQueen, Julia Roberts, Agelina Jolie, Bruce Willis, M.C. Escher, Charles Chaplin, Cole Porter, Marilyn Monroe, George Michael, Jimi Hendrix, Johnny Rotten, Natale Cole, Paul McCartney, Phil Collins, Phil Everly, Robert Plant, e Tony Iommi.
Atletas: John McEnroe, Martina Navratilova, Garrincha, Maradona, Johan Cruyff, Fernando Meligeni, Romário e Ayrton Senna.
Outros: Henry Ford, David Rockefeller e Einstein.
Uma curiosidade é ver alguns personagens canhotos. Por que um autor decide que sua criação usará a mão esquerda? Há algumas explicações: Rocky Balboa era um southpaw por causa da fama que os lutadores que usam a mão esquerda têm de ser imprevisíveis. Já o Neo, de Matrix, provavelmente é canhoto porque Keanu Reeves também o é. Keyser Soze, de Os Suspeitos, usa a mão esquerda por causa de uma aparente deficiência física que afeta o lado direito do seu corpo. Bob Esponja e Dilbert, no entanto, apenas reforçam o estigma de que o canhoto é atrapalhado. Com relação a Bart Simpson, bom, este é um destrabelhado mesmo. Ah, e Leonardo, Michelangelo e Raphael a que me referi lá em cima não são as Tartarugas Ninja...
Mas nem só de bons exemplos orgulham-se os canhotos. Pelos ferimentos de suas vítimas, acredita-se que Jack o Estripador era canhoto, tal como o famoso serial killer Albert de Salvo, o estrangulador de Boston. Assim como John Dillinger, o sanguinário gângster americano do início do século passado e Billy the Kid, o pistoleiro que aterrorizou o faroeste ianque.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
JEFF BUCKLEY - Vida e Obra
Nascido em 17 de novembro de 1966 (Orange County, CA, EUA), Jeffrey Scott Buckley começou a gostar de música desde pequeno. Além de ter sido influenciado pela eclética coleção de discos de sua mãe, Mary Guibert, Jeff herdou os genes musicais de um homem que mal conheceu, o semifamoso cantor dos anos 60, Tim Buckley.
Jeff passou a adolescência ouvindo diversos tipos de música como blues e jazz, mas principalmente rock (suas bandas favoritas, Led Zeppelin, Kiss) e rock progressivo (Genesis, Yes, Rush). Depois de terminar o colegial, ele decide que música seria o caminho a seguir. Com medo de ser comparado a seu pai, em vez de cantar, Jeff decide inicialmente só tocar guitarra, indo estudar no famoso G.I.T (Guitar Institute of Technology). Diversas experiências vieram em seguida: Jeff trabalhou em estúdio, tocou em bandas de funk, jazz e punk e até trabalhou na Banana Republic, de onde foi demitido após ser acusado de roubar uma camiseta.
Em 1991, ao ser convidado a participar de um show tributo a seu finado pai, duas coisas importantes aconteceram: Jeff resolve cantar (coisa que deixou o público boquiaberto) e Jeff conhece o ex-guitarrista da banda Captain Beefheart, Gary Lucas, que impressionado com sua voz, decide convidá-lo para integrar a banda Gods and Monsters. Afiada tanto nas performances ao vivo como nas composições próprias, o Gods and Monsters estava prestes a assinar com uma gravadora, quando Buckley decide abandonar o projeto por achar que um contrato, naquele momento, restringiria suas ambições musicais (Jeff queria, na verdade, ser artista solo).
No ano seguinte, ele começa a se apresentar sozinho (voz e guitarra) num bar nova-iorquino chamado “Sin-é”. Suas performances eram tão impressionantes que não demorou muito para que seus talentos fossem descobertos. Em outubro de 92, ele assina com a Columbia Records para a gravação de seu primeiro álbum solo.
“Grace” chega às lojas em agosto de 1994 e é imediatamente aclamado pela crítica e por artistas como Paul McCartney, Chris Cornell, Bono (“Jeff Buckley é uma gota cristalina num oceano de ruídos”) e Jimmy Page (“Quando o Plant e eu vimos ele tocando na Austrália, ficamos assustados. Foi realmente tocante”). Apesar disso e dos esforços promocionais (longa turnê de dois anos, dois videoclips), “Grace” vendeu muito menos do que o esperado. A música de Buckley era considerada leve demais para as rádios alternativas e pouco comercial para as rádios FM.
Em 1996, ele começa a trabalhar em seu segundo álbum e, contrariando sua gravadora que queria um disco mais comercial, chama Tom Verlaine, do grupo Television, para a produção. Quando as gravações estavam por se encerrar, Jeff, insatisfeito com o resultado, decide que o material não deveria ser lançado e, assim, ele começa a compor novas canções. E é isso que ele faz até maio de 97, quando finalmente chama os integrantes de sua banda para começar as gravações em Memphis, cidade onde morava na época.
No dia 29 de maio de 1997, helicópteros sobrevoavam o Wolf River em busca de uma pessoa que ali havia desaparecido. Segundo relato do amigo Keith Foti, Jeff Buckley resolveu parar para nadar naquele rio antes de se encontrar com sua banda. Depois de alguns minutos, Foti foi até o carro para guardar alguns objetos, enquanto ouvia Jeff nadando e cantarolando “Whole Lotta Love”. Quando voltou, não viu mais nada. Ele gritou por “Jeff” por quase dez minutos e, não obtendo resposta, decidiu chamar a polícia. O corpo de Jeff Buckley foi encontrado só uma semana depois, dia 4 de junho, perto da nascente do rio Mississippi.
O álbum póstumo “Sketches for My Sweetheart the Drunk” foi lançado em 1998. “Sketches” é composto das gravações que Jeff fez com Tom Verlaine mais as músicas nas quais Jeff trabalhava antes de morrer.
Em 2000, “Mystery White Boy” veio relembrar Jeff nas suas performances ao vivo.
Apesar da morte trágica, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos fãs. Artistas como Coldplay, Muse e Radiohead não cansam de mencionar Jeff como suas principais influências. Além disso, “Grace” vem constantemente sendo citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Quem conhece a obra de Jeff Buckley sabe que isso não é exagero.
Documentário:
Fonte: Jeff Buckley - Matérias e Biografias
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
A Homoafetividade No Filme Assunto De Meninas
Introdução
A homoafetividade tem sido tema de discussões e debates na sociedade. Embora não haja respostas sobre o assunto por parte das ciências que estudam a sexualidade humana, a maioria heterossexual trata o homoafetivo como doente, anormal.
A homossexualidade, discursivamente produzida, transforma-se em questão social relevante. A disputa centra-se fundamentalmente em seu significado moral. Enquanto alguns assinalam o caráter desviante, a anormalidade ou a inferioridade do homossexual, outros proclamam sua normalidade e naturalidade. (LOURO, 2001,p.6).
Por isso, os homoafetivos sofrem preconceito, discriminação e até violência de indivíduos ditos homofóbicos. Não raro, os meios de comunicação relatam casos de pessoas vítimas de grupos anti-homoafetivos.
Hoje, a polêmica tem se intensificado devido à pressão de organismos de defesa dos direitos humanos e de organizações de homoafetivos, que lutam por respeito e direitos iguais, como cidadãos.
Por ser um tema que divide opiniões da sociedade, entre os que reconhecem, ou não, os direitos do homoafetivo e estar em evidência no mundo, vamos estudá-lo sob a perspectiva da Análise do Discurso. Que discursos encontramos sobre orientação sexual no filme Assunto de Meninas? Esse trabalho objetiva analisar aspectos do discurso sobre orientação sexual em Assunto de Meninas.
Sendo o tema objeto de controvérsias, esse trabalho constitui um instrumento para a compreensão dos aspectos ideológicos subjacentes a essa discussão. Assim, o leitor adquirirá uma visão crítica da sociedade e poderá fazer análise do discurso em outros filmes e textos.
Fundamentação teórica
A teoria da Análise do Discurso, de linha francesa, baseia-se na Lingüística, no Marxismo e na Psicanálise, e analisa a relação entre ideologia e linguagem, por meio do discurso. Seus conceitos-chave aplicados na análise do filme são: formação ideológica, formação discursiva e discurso.
A formação ideológica caracteriza, segundo Harochi (1971, p. 102):
um elemento (determinado aspecto da luta nos aparelhos) susceptível como uma força confrontada com outras forças na conjuntura ideológica característica de uma formação social em um momento dado: cada formação ideológica constitui assim um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem "individuais" nem "universais" mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classe em conflito umas em relação às outras.
Em Assunto de Meninas, existe um confronto ideológico. Num colégio interno Paulie namora Tori. Essa relação homoafetiva é descoberta quando, com um grupo de amigas, a irmã de Tori vai ao quarto dela e flagra-a deitada com Paulie, nua. Temendo que Allison conte para seus pais e as colegas a chamem de homoafetiva, Tori passa a negar seu namoro com Paulie, que luta para reconquistar a ex-companheira. Há, pois, no filme, uma luta entre o discurso de respeito ao homoafetivo, de Paulie, e o discurso de não-respeito ao homoafetivo, do restante da escola. Essas posições distintas são as formações discursivas.
Para Pêcheux (1997, p. 160), formação discursiva é
aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada (...), determina o que pode e deve ser dito(articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.).
O discurso é uma ação social, um ato de um locutor que possui uma intenção, efeito de sentidos entre locutores, como parte do funcionamento social geral (ORLANDI, 1996).
Quando a diretora do colégio, Vaughn, diz a Paulie que compreende o que ela sente, mas que ela precisa de ajuda, está tentando convencê-la de que está doente e precisa ser tratada, num discurso de não-respeito à homoafetividade.
Metodologia
O filme Assunto de Meninas foi tomado como corpus para esta análise. O tema da homoafetividade foi tomado como formação ideológica, enquanto o respeito e o não respeito a essa orientação sexual foram tomados aqui como duas formações discursivas.
Análise de dados do filme Assunto de Meninas
Formação ideológica
A ideologia é um conjuntos de idéias, atitudes, ações consideradas "naturais", sem justificativa prática que, numa época e lugar, são capazes de gerar posições divergentes e conflitantes.No filme Assunto de Meninas, o tema da homoafetividade constitui uma formação ideológica, como se percebe nas seguintes cenas:
Cena A:
Tori [a Paulie]: - Não sei o que faria sem você. (E se beijam)
Cena B:
Tori: - Em primeiro lugar, seja lá o que estejam dizendo, é mentira. Idiotice.
Colega de classe: - Mesmo que fosse verdade, seria tipo: "E daí? Não se metam".
Tori: - Mas não é verdade.
Colega de classe: - Minha tia é gay. E daí?
Tori: - Mas eu não sou.
Cena C:
Tori [a Mary]: - Sei que pode ser estranho pra você (...) você não conhece meus pais. São muito corretos e religiosos (...). Eu amo a Paulie. Você sabe como eu a amo.
Tori [a Mary]: - Existe uma vida que tenho que viver. O sonho que meu pai e minha mãe têm pra mim. E, mesmo que esteja me matando, nunca mais serei a mesma pessoa com ela. Nunca mais ficarei com ela. Jamais.
Cena D:
Tori e Paulie (em uma noite de amor)
Cena E:
Tori [a sua irmã Allison]: - Ally, adoro meninos, sou louca por garotos.
Nas cenas A, C e D o discurso é o de respeito ao homoafetivo. A personagem Tori diz amar sua parceira e a beija, transa com ela. Nos enunciados seguintes, seu discurso será de negação à homoafetividade, conforme transcrito nas cenas B e E. Na cena C, porém, o conflito ideológico aparece mais evidente. Tori afirma que seus pais são religiosos e teme confrontá-los, pois eles não aceitariam sua orientação sexual. Por isso, embora ame Paulie, nega esse amor e sofre para viver a vida sonhada pelos pais.
Formação discursiva
Todo discurso está ligado a um grupo, a uma instituição, pois pertence a ao coletivo. Segundo Pêcheux (1975), são as formações discursivas que, em uma formação ideológica dada, determinam "o que pode e deve ser dito" a partir de uma posição dada em uma sociedade.
Em Assunto de Meninas, na formação ideológica da orientação sexual, há duas formações discursivas distintas: uma que sustenta o discurso de não-respeito ao homoafetivo e outra que assume o discurso de respeito ao homoafetivo. Nesse trabalho, será enfocada a formação discursiva de não-respeito ao homoafetivo e os princípios subjacentes a essa formação, conforme as seguintes cenas:
·Tori confessa a Mary que ama Paulie e revela por que não pode manter sua relação homoafetiva.
1)Tori [a Mary]: - Sei que pode ser estranho pra você (...) você não conhece meus pais. São muito corretos e religiosos (...). Eu amo a Paulie. Você sabe como eu a amo.
Princípios:
A homoafetividade é estranha.
Pessoas corretas são contra a homoafetividade.
Pessoas religiosas são contra a homoafetividade.
·Paulie pergunta o que Mary acha de Vaughn, insinuando que ela teria um caso com Barnnet.
2) Paulie: - O que você acha da senhorita Vaughn?
Mary: - Ela é legal.
Tori: - Algumas meninas falam mal dela.
Paulie: - Ela e Bannet, com certeza, têm um caso.
Mary: Ela me pareceu legal. Quero dizer...normal.
Princípios:
Os homoafetivos são discriminados.
A homoafetividade é ilegal.
A homoafetividade é anormal.
·Grupo de meninas, após surpreender o casal de lésbicas na cama.
3) Allison [irmã de Tori]: - Que nojento!
Princípio:
A homoafetividade é nojenta.
Vendo sua irmã na cama com outra menina, Allison qualifica o ato de nojento. No uso comum, a palavra nojento significa repulsivo, imundo, repugnante. No discurso de não-respeito ao homoafetivo, a palavra nojento possui o sentido de ato homoafetivo, aquilo que causa náusea, desagradável e que naturalmente deve ser expelido.
Como podemos perceber, pela análise do funcionamento discursivo, as palavras não possuem um sentido literal, mas adquirem sentido apenas no seu uso concreto conforme as posições ideológicas em que são (re)produzidas. No filme Assunto de Meninas, as palavras destacadas nos enunciados possuem sentidos distintos daqueles do uso mais comum em que são empregadas. Conhecendo a situação concreta de seu uso, foi possível compreender seu sentido material, seu caráter ideológico e sua formação discursiva de não-respeito ao homoafetivo.
Considerações finais
Conforme vimos, o tema orientação sexual no filme Assunto de Meninas constitui uma formação ideológica, pois existem nele dois discursos conflitantes, ou seja, duas formações discursivas. O discurso de respeito ao homoafetivo, sustentado até a morte por Paulie, e o discurso de não-respeito ao homoafetivo, que é o predominante. Este discurso baseia-se nos princípios de que a homoafetividade é estranha, proibida, incorreta, feia, anormal, ilegal e nojenta. Além disso, o discurso desrespeitoso considera a homoafetividade uma doença e um problema, acreditando que as pessoas que se interessam por indivíduos do mesmo gênero precisam ser tratadas.
Vimos ainda que as palavras não possuem sentido em si mesmas, mas só o adquirem dentro de determinada formação discursiva. No caso do discurso de não-respeito ao homoafetivo, do qual nos ocupamos, mostramos que palavras corriqueiras como normal e legal, por exemplo, assumem o sentido de fora da norma, fora da lei, algo considerado ilegal e, portanto, crime, passível de punição, pela maioria que reprodutora do discurso dominante.
Referências
BRANDÃO, Helena H. N. Introdução à análise do discurso. 4 ed. Campinas:UNICAMP, 1995.
CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. Análise do discurso no ensino do português. Mimeografado
LOURO, GUACIRA LOPES. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 9, n. 2, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2001000200012&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Fev 2007.
ORLANDI, Eni Puccinelli. A linguagem e seu funcionamento. As formas do discurso.4a ed. Campinas, SP: Pontes, 1996.
PÊCHEUX, Michel.Semântica e discurso. Uma crítica à afirmação do óbvio. 3ª ed.Trad. Eni Pulcinelli Orlandi, Lourenço Chacon Jurado Filho, Manoel Luiz. Gonçalves Corrêa e Silvana Mabel Serrani. Campinas (SP): UNICAMP, 1997.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
BLACK SWAN - CISNE NEGRO
Filme do diretor americano Darren Aronofsky: mesmo diretor de O Lutador (2008), onde um lutador de luta livre em decadência, com grande sofrimento psíquico, luta para vencer suas angústias e a dependência em anabolizantes. Dirigiu também PI (1998), que relata a evolução de um quadro de esquizofrenia e Réquiem para um sonho, que conta a história de personagens dependentes de substâncias químicas e suas superações.
Em Black Swan (2010) Natalie Portman interpreta a bailarina infantil e inocente Nina Sayers, única filha de uma bailarina aposentada e frustrada (Barbara Hershey) em sua vida amorosa e profissional.
Elencada para interpretar Odete em O Lago dos Cisnes (Tchaikovsky), Nina carrega as mesmas características da personagem no momento que interpreta o cisne branco. Insegura, pueril, submissa e presa à sua condição angelical.
Na peça, Odete é encantada por um feitiço e se transforma em um lindo cisne branco, porém muito triste. Apenas o amor exclusivo do príncipe poderia desfazer o feitiço. A cor branca é sempre associada tanto a ausência quanto a possibilidade de preenchimento e transformação. É uma cor "de passagem", usada em rituais onde a pessoa que usa irá sofrer grande transformação.
O filme enfoca a relação doentia de interdependência entre mãe e filha e suas consequências desastrosas. A principal tarefa de Nina e de qualquer um que se encontre ligado simbioticamente a alguém é "desmisturar-se" para poder se encontrar. E essa separação pode doer demais.
A questão simbiótica envolve a pele, já que esta representa a fronteira entre o que está dentro e fora.
Na relação simbiótica não há limites ou fronteiras e todos os sentimentos e sensações são muito parecidos e sintonizados. A tentativa de separação pode ser encarada como alta traição por um dos "misturados". Essa crise pode levar a extremos. Muitos crimes passionais e suicídios surgem deste drama. A sensação experimentada pelos envolvidos pode ser de mutilação emocional e chegar a um nível insuportável. Nina vive este drama de maneira psicótica, sentindo sua pele romper ora com espinhos, ora com a tentativa de suas asas saírem pela pele. Ela precisava alçar voo, libertar-se, tal como o cisne branco. Este voo a levará ao inevitável e preciso cisne negro.
O cisne negro precisava ser vivido por Nina em sua vida pessoal. Ele representa o inverso. Assim como o branco é dia, o inverso do negro, que representa a noite e suas profundidades. Um representa o conhecimento e outro a ignorância. O conhecido, elaborado e o selvagem inexplorado. É preciso vencer o lado negro, sombra, para que haja a transformação.
Nesse momento surge a personagem de Mila Kunis, colega de ensaios. Sua presença a encanta e assusta, já que esta vive e representa sua sombra, seu lado obscuro, pouco mostrado no dia a dia e pouco acessível inclusive a ela. Podemos pensar nesse encontro como este que devemos realizar constantemente entre nossas polaridades.
Durante os ensaios da peça Nina tem experiências com sua sexualidade, dor e angústia, entregando-se, finalmente, às vivências desse lado sombra.
O cisne negro toma o lugar do branco pouco a pouco. Personagem e bailarina se misturam. É desesperador. O self pede espaço, vem como uma força da natureza enquanto o cordão umbilical que está ligado à mãe começa a se desprender. A sensação é de morte eminente. O cisne negro a havia dominado.
Ao executar o ato final, Nina interpreta perfeitamente tanto o cisne branco quanto o negro, que integra seu lado agressivo, que irá impulsioná-la a suicidar-se, matar seu lado submisso e renascer como pessoa inteira, simbolicamente.
Este processo é fundamental para todos nós. Esse exercício de separação-união entre o eu-social, eu com a família, eu que cumpro leis e aquele eu selvagem, agressivo, perigoso, salvador e vital. Caso esse lado seja desconhecido, abandonado, negado, pode assumir formas monstruosas e avassaladoras. Aí, em vez de haver uma integração, ocorre a destruição, pelo poder da força acumulada e represada.
O grande perigo dessa busca pela nossa sombra reside na perda de si próprio. Ao encarnar o cisne negro, Nina impõe morte ao seu corpo. Precisamos "descer" com cuidado, iluminar a caverna escura aos poucos, com técnica, precisão (aspectos egoicos, do eu com o mundo) sem deixar a intuição e a percepção de lado (motivações inconscientes e não conscientes).
A descida ao desconhecido deve ser feita. O salto para morte tem que ser dado quantas vezes for preciso. A coragem para enfrentar essa dureza da vida é o combustível para que se viva plenamente.
sábado, 24 de novembro de 2012
A Arte Popular no Universo Shakesperiano
O Programa Cultural Vivo EnCena traz a Porto Alegre o ator e produtor Claudio Fontana para debater A Arte Popular no Universo Shakesperiano.
Com mediação de Expedito Araujo, curador do Programa Vivo EnCena e pesquisador em gestão cultural, a discussão tem entrada franca e é baseada na relação da arte popular que integra e que se revela no universo de muitas obras de Shakespeare, tendo como ponto de partida a montagem de “Macbeth”, em cartaz na cidade, nos dias 23, 24 e 25 de novembro.
O teatro exerce importante influência nos movimentos culturais de uma cidade, e, desta forma, o Debates Vivo EnCena: A Arte Popular no Universo Skakesperiano pretende ampliar o olhar sobre as performances do cotidiano, descobrir as possibilidades de (re)significação a partir dos discursos dos convidados e refletir sobre o papel da arte em contextos específicos. De acordo com Expedito Araujo, o projeto exerce um papel fundamental que ultrapassa os limites dos palcos: “Em pauta está também o desejo de conhecer um pouco mais sobre o que está sendo feito em todas as regiões do país, como também vocações de determinadas regiões como espaços referenciais de compartilhamento e trocas artísticas a partir de projetos próprios que vão além do espetáculo” explica Araujo. “Sobretudo em Porto Alegre, onde o programa tem tido presença constante buscando se relacionar com os grupos locais, mesmo que ainda em estágio inicial. Teremos como convidado Claudio Fontana, ator do espetáculo “Macbeth”, que tem de direção de Gabriel Villela, mestre em trazer a arte popular para dentro da cena com o poder de comunicar e encantar àqueles que assistem suas criações. Com certeza será um debate primoroso, pois verticalizar este lugar no universo de Shakespeare, e que tanto se revela em Macbeth, é muito instigante” conclui.
A ação tem como objetivo a formação de plateia e de espectadores mais qualificada e também uma reflexão sobre o acesso ao conhecimento a partir das artes cênicas, já que o projeto sempre dialoga com um espetáculo do Programa Vivo EnCena, de forma continuada. No debate, o diálogo surge a partir da montagem de “Macbeth”, direção de Gabriel Villela.
Por meio de palestras e mesas redondas, o projeto Debates Vivo EnCena estimula o acesso ao conhecimento, reflexão e transformação a partir das inúmeras facetas relacionadas às artes cênicas. Dessa forma, em Porto Alegre, coloca em debate o tema A Arte Popular no Universo Shakesperiano. O encontro acontece no dia 24 de novembro, às 16h, com entrada franca no Café do Teatro, do Theatro São Pedro.
O Debates Vivo EnCena é uma oportunidade especial de o programa inserir a discussão sobre cultura e teatro dentro do cenário artístico atual, a partir de uma mostra singular e cada vez mais precursora para o público.
Sobre Claudio Fontana
Claudio Fontana é ator e produtor teatral. Fez seis anos de teatro amador em São Paulo no Esporte Clube Pinheiros e iniciou sua carreira profissional no teatro, em 1990 em “VEM BUSCAR-ME QUE AINDA SOU TEU”, de C. A. Soffredini, direção de Gabriel Villela, espetáculo que lhe rendeu o Prêmio APETESP de Revelação. A partir de então, alternou trabalhos em TV, teatro e cinema. Em teatro, destacam-se “MACBETH” (onde interpreta LADY MACBETH) e “ADIVINHE QUEM VEM PARA REZAR”, onde contracenou com PAULO AUTRAN; “PÓLVORA E POESIA”, “A PONTE E A ÁGUA DE PISCINA”, “FELIZ ANO VELHO” e “TRAÇAS DA PAIXÃO”, de Alcides Nogueira; “PÉROLA”, de Mauro Rasi e “ANDAIME”, de Sergio Roveri. Sob a direção de Gabriel Villela, “MARY STUART”, de Schiller, “A GUERRA SANTA”, de Luis Alberto de Abreu e “CALÍGULA”, de A. Camus (2010). Foi dirigido por Marcio Aurélio, Enrique Diaz, Elias Andreato, Mauro Rasi, José Possi Neto e Fernando Guerreiro. Na TV, gravou “REI DAVI”, minissérie na TV RECORD, onde interpretou JONATAS, “CIRANDA DE PEDRA”, “AMERICA”, a minissérie “UM SÓ CORAÇÃO”, “SEUS OLHOS”, “FERA FERIDA”, “AS PUPILAS DO SR. REITOR”, “DEUS NOS ACUDA”, “O AMOR ESTÁ NO AR”, entre outras. No cinema, fez “I HATE SÃO PAULO”, longa que participou da Mostra Internacional de São Paulo de 2003, e “ZICO, O FILME”, sobre a vida do ex-jogador. Estreou como produtor teatral de espetáculos em “UMA COISA MUITO LOUCA”, de Flávio de Souza. Em 2001, produziu e atuou em “PÓLVORA E POESIA”, de Alcides Nogueira, espetáculo vencedor de três Prêmios Shell, com o apoio do Prêmio Flávio Rangel da Secretaria de Estado da Cultura. Em 2002/2003, produziu e atuou em “A PONTE E A ÁGUA DE PISCINA”, com a atriz Walderez de Barros. Em 2005/2006, atuou e produziu “ADIVINHE QUEM VEM PARA REZAR”, com Paulo Autran, direção de Elias Andreato. Em 2007/8, produziu e atuou em “ANDAIME”, com Cássio Scapin. Em 2008, produziu POR UM FIO, de Drauzio Varella, com Regina Braga e Rodolfo Vaz. Em 2008/09/10 atuou e produziu “CALÍGULA”, com Thiago Lacerda e VESTIDO DE NOIVA, com Leandra Leal e Marcello Antony. Em 2011, produziu “CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA”, de Dib Carneiro Neto, ESPETÁCULO VENCEDOR DO PRÊMIO CONTIGO DE MELHOR DRAMA baseado no livro de Lucio Cardoso, com Xuxa Lopes e “MOZART APAGA A LUZ”, infantil de Christine Rohrig sobre a vida do compositor austríaco e ainda HÉCUBA, de Eurípides, com a atriz Walderez de Barros. Em 2012, produz “MACBETH”, com Marcello Antony, direção de Gabriel Villela, e “HAMLET”, com Thiago Lacerda, direção de Ron Daniels.
Sobre Expedito Araujo
Curador do programa cultural Vivo EnCena, pesquisador na área de gestão cultural, com formação em artes cênicas e ciências sociais, tem mais de 10 anos de experiência na área de gestão no setor público. Destaca-se por sua atuação no processo de elaboração de diretrizes do “Projeto Bando a Parte”, do Teatrão, de Coimbra, em Portugal. Autor do livro “Núcleo Vocacional, Criação e Trajetória” (Editora SMC-SP/ 2008) e de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais.
Sobre o Vivo EnCena
Programa cultural para as artes cênicas, o Vivo EnCena estimula a conexão de projetos e promove o intercâmbio de pessoas em diferentes estágios de suas carreiras. A ideia é pensar o teatro além do espetáculo e, dessa forma, estabelecer ações voltadas para difusão, circulação, mobilização e formação por todo País, compartilhando histórias inspiradoras, conceitos inovadores e ações transformadoras no âmbito das artes cênicas.
O Vivo EnCena é realizado há dois anos em 18 estados brasileiros. Já patrocinou mais de 50 projetos continuados, além de realizar ações próprias e, também, a curadoria do Teatro Vivo e do Grande Auditório do MASP, situados na capital paulista. O programa utiliza o teatro como ferramenta viva de acesso, reflexão, inclusão, autonomia e transformação com o intuito de favorecer os resultados positivos sobre a trajetória e sustentabilidade de todos.
Debates Vivo EnCena: A Arte Popular no Universo Shakesperiano, com Claudio Fontana e mediação de Expedito Araujo
24 de novembro, sábado, às 16h
Café do Teatro – Theatro São Pedro
Entrada Franca (Entrada 30min antes do horário de início do Debates)
Fonte: Assessoria de Imprensa
TDAH -Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade
Infelizmente, muitos médicos ainda relutam em definir o diagnóstico de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) em seus pacientes. Isso ocorre por uma mistura de preconceito e relutância frente à real dimensão do problema, mesmo a ciência já tendo concluído que a patologia tem origem genética. Essa é a opinião da médica Drª Tatiana Freire Barbosa, neurologista infantil, especialista em TDAH e doutoranda no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e que desde 2002 acompanha e estuda portadores desse transtorno. Pesquisas recentes demonstram que o TDAH é uma doença de transmissão genética e com alta herdabilidade nos descendentes de pais acometidos pelo transtorno. Além de haver estudos para identificar alguns dos supostos genes envolvidos na doença, sabe-se que a mediação da dopamina nas sinapses em portadores do transtorno é mais fraca, assim como sua captação é muito mais rápido do que em pessoas não afetadas. "Sabemos que nos portadores do TDAH existe uma falha no metabolismo da dopamina, um dos neurotransmissores envolvidos nos sintomas", explica a Drª Tatiana Freire. "Hoje, o que sabemos, é que existem genes que determinam o problema, e que a alteração está no lobo frontal do cérebro e suas conexões". O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um dos transtornos mais frequentes em crianças na idade escolar, atingindo 3 a 5% delas. Apesar disto, o TDAH continua sendo pouco conhecido por profissionais das áreas da educação e saúde.
O desconhecimento desse quadro frequentemente acaba levando à demora do diagnóstico e do tratamento, o que acarreta prejuízo e sofrimento ao longo da vida; situações estas que poderiam ser amenizadas ou até mesmo evitadas."A detecção do TDAH é feita dimensionalmente, ou seja, a partir de características específicas e correlacionadas apresentadas pelo paciente", explica a neurologista infantil, Drª Tatiana Freire. "Infelizmente, não existe um parâmetro, um exame que possa determinar o transtorno", enfatiza. Isso explica o porquê muitos especialistas, como a doutora Tatiana, acreditam que existe um preocupante subdimensionamento do número oficial de portadores da patologia. Mesmo assim, o Brasil é o segundo maior centro produtor de estudos sobre o TDAH no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Na realidade, determinar qual o nível de atividade normal de uma criança é um assunto polêmico. A maioria dos pais tem uma certa expectativa em relação ao comportamento de seus filhos e, normalmente, esta expectativa inclui um certo grau de agitação, bagunça e desobediência, características que são aceitas como indicativos de saúde e vivacidade infantil. Por isso que os primeiros alertas sobre o TDAH surgem nas escolas. "É comum que a primeira pessoa a notar o problema seja o educador", revela a Drª Tatiana. Os principais sinais são a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade. O TDAH na infância, pode se associar à dificuldade na escola e no relacionamento com as outras crianças, pais e professores. Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas nem todos são desatentos. A maioria dos portadores de TDAH também apresentam outros transtornos, como bipolaridade de humor, transtorno de conduta, transtorno explosivo intermitente e uso de substâncias químicas (mais comum na adolescência). Um dado importante é que, de 20 a 40% dos portadores do transtorno têm distúrbios de aprendizado como dislexia (caracteriza-se por uma dificuldade na área da leitura, escrita e soletração) e/ou discalculia ( É definido como uma desordem neurológica específica que afeta a habilidade de uma pessoa de compreender e manipular números), segundo a Drª Tatiana Freire, o ideal é iniciar o tratamento por volta dos seis anos de idade, que é feito, basicamente, por meio de medicamentos e ações multidisciplinares (educadores, pedagogos, psicopedagogos, psicólogos, etc.).
Fonte: Ipanema online
Dreams
(Tati Pereira)
I looked at you,
you didn't noticed
your lips i kissed
without even touch you
I can smell you, taste you
i question myself all the time
maybe one day i'll leave all
the questions behind
maybe one day
isn't interesting this mistery?
makes it lighter, pure, innocent
Maybe one day
inside me everything fits better
well kept, secure, perfect!
Maybe one day
isn't interesting this mistery?
i question myself all the time...
domingo, 12 de agosto de 2012
A Vision of the Human Future in Space
Trechos do livro "Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space" de Carl Sagan, narrado pelo mesmo. Mais especificamente, do capítulo intitulado "Um Universo que não foi feito para nós".
segunda-feira, 12 de março de 2012
Baruch Spinoza
O racionalismo cartesiano é levado a uma rápida, lógica, extrema conclusão por Spinoza. O problema das relações entre Deus e o mundo é por ele resolvido em sentido monista: de um lado, desenvolvendo o conceito de substância cartesiana, pelo que há uma só verdadeira e própria substância, a divina; de outro lado introduzindo na corrente racionalista-cartesiana uma preformada concepção neoplatônica de Deus, a saber, uma concepção panteísta-emanatista. O problema, pois, das relações entre o espírito e a matéria é resolvido por Spinoza, fazendo da matéria e do espírito dois atributos da única substância divina. Une os dois na mesma substância segundo um paralelismo psicofísico, uma animação universal, uma forma de pampsiquismo. Em geral, pode-se dizer que Descartes fornece a Spinoza o elemento arquitetônico, lógico-geométrico, para a construção do seu sistema, cujo conteúdo monista, em parte deriva da tradição neoplatônica, em parte do próprio Descartes.
Os demais racionalistas de maior envergadura da corrente cartesiana se seguem, cronologicamente, depois de Spinoza; entretanto, logicamente, estão antes dele, pois não têm a ousadia - em especial Malebranche - de chegar até às extremas conseqüências e conclusões racionalista-monista, exigidas pelas premissas cartesianas, detidos por motivos práticos-religiosos e morais, que não se encontram em Spinoza. Com isto não se excluem, por parte deles, desenvolvimentos em outro sentido. Por exemplo, não se excluem os desenvolvimentos idealistas do fenomenismo racionalista por parte de Leibniz.
Vida e Obras
Baruch Spinoza nasceu em Amsterdam em 1632, filho de hebreus portugueses, de modesta condição social, emigrados para a Holanda. Recebeu uma educação hebraica na academia israelita de Amsterdam, com base especialmente nas Sagradas Escrituras. Demonstrando muita inteligência, foi iniciado na filosofia hebraica (medieval-neoplatônico-panteísta) e destinado a ser rabino.
Mas, depois de se manifestar o seu racionalismo e tendo ele recusado qualquer retratação, foi excomungado pela Sinagoga em 1656. Também as autoridades protestantes o desterraram como blasfemador contra a Sagrada Escritura. Spinoza reitrou-se, primeiro, para os arredores de Amsterdam, em seguida para perto de Leida e enfim refugiou-se em Haia. Aos vinte e cinco anos de idade esse filósofo, sem pátria, sem família, sem saúde, sem riqueza, se acha também isolado religiosamente.
Os outros acontecimentos mais notáveis na formação espiritual especulativa de Spinoza são: o contacto com Francisco van den Ende, médico e livre pensador; as relações travadas com alguns meios cristão-protestantes. Van den Ende iniciou-o no pensamento cartesiano, nas línguas clássicas, na cultura da Renascença; e nos meios religiosos holandeses aprendeu um cristianismo sem dogmas, de conteúdo essencialmente moralista.
Além destes fatos exteriores, nada encontramos de notável exteriormente na breve vida de Spinoza, inteiramente dedicada à meditação filosófica e à redação de suas obras. Provia pois às suas limitadas necessidades materiais, preparando lentes ópticas para microscópios e telescópios, arte que aprendera durante a sua formação rabínica; e também aceitando alguma ajuda do pequeno grupo de amigos e discípulos. Para não comprometer a sua independência especulativa e a sua paz, recusou uma pensão oferecida pelo "grande Condé" e uma cátedra universitária em Heidelberg, que lhe propusera Carlos Ludovico, eleitor palatino.
Uma tuberculose enfraquecera seu corpo. Após alguns meses de cama, Spinoza faleceu aos quarenta e quatro anos de idade, em 1677, em Haia. Deixou uma notável biblioteca filosófica; mas a sua herança mal chegou para pagar as despesas do funeral e as poucas dívidas contraídas durante a enfermidade.
Um traço característico e fundamental do caráter de Spinoza é a sua concepção prática, moral, de filosofia, como solucionadora última do problema da vida. E, ao mesmo tempo, a sua firme convicção de que a solução desse problema não é possível senão teoreticamente, intelectualmente, através do conhecimento e da contemplação filosófica da realidade.
As obras filosóficas principais de Spinoza são: a Ethica (publicada postumamente em Amsterdam em 1677), que constitui precisamente o seu sistema filosófico; o Tractatus theologivo-politicus (publicado anônimo em Hamburgo em 1670), que contém a sua filosofia religiosa e política.
A princípio desconhecido e atacado, o pensamento de Spinoza acabou por interessar e influenciar particularmente a cultura moderna depois de Kant (Lessing, Goethe, Schelling, Hegel, Schleiermacher, etc.), proporcionando ao idealismo o elemento metafísico monista, naturalmente filtrado através da crítica kantiana.
O Pensamento: Deus
A teologia de Spinoza é contida, substancialmente, no primeiro livro da Ethica (De Deo). Spinoza quereria deduzir de Deus racionalmente, logicamente, geometricamente toda a realidade, como aparece pela própria estrutura exterior da Ethica ordine geometrico demonstrata. Não nos esqueçamos de que o Deus spinoziano é a substância única e a causa única; isto é, estamos em cheio no panteísmo. A substância divina é eterna e infinita: quer dizer, está fora do tempo e se desdobra em número infinito de perfeições ou atributos infinitos.
Desses atributos, entretanto, o intelecto humano conhece dois apenas: o espírito e a matéria, a cogitatio e a extensio. Descartes diminuiu estas substâncias, e no monismo spinoziano descem à condição de simples atributos da substância única. Pensamento e extensão são expressões diversas e irredutíveis da substância absoluta, mas nela unificadas e correspondentes, graças à doutrina spinoziana do paralelismo psicofísico.
A substância e os atributos constituem a natura naturans. Da natura naturans (Deus) procede o mundo das coisas, isto é, os modos. Eles são modificações dos atributos, e Spinoza chama-os natura naturata (o mundo). Os modos distinguem-se em primitivos e derivados. Os modos primitivos representam as determinações mais imediatas e universais dos atributos e são eternos e infinitos: por exemplo, o intellectus infinitus é um modo primitivo do atributo do pensamento, e o motus infinitus é um modo primitivo do atributo extensão.
As leis do paralelismo psicofísico, que governam o mundo dos atributos, regem naturalmente todo o mundo dos modos, quer primitivos quer derivados. Cada corpo tem uma alma, como cada alma tem um corpo; este corpo constituiria o conteúdo fundamental do conhecimento da alma, a saber: a cada modo de ser e de operar na extensão corresponde um modo de ser e de operar do pensamento. Nenhuma ação é possível entre a alma e o corpo - como dizia também Descartes - e como Spinoza sustenta até o fundo.
A lei suprema da realidade única e universal de Spinoza é a necessidade. Como tudo é necessário na natura naturans, assim tudo também é necessário na natura naturata. E igualmente necessário é o liame que une entre si natura naturans e natura naturata. Deus não somente é racionalmente necessitado na sua vida interior, mas se manifesta necessariamente no mundo, em que, por sua vez, tudo é necessitado, a matéria e o espírito, o intelecto e a vontade.
O Homem
Do primeiro livro da Ethica - cujo objeto é Deus - Spinoza passa a considerar, no segundo livro (De mente), o espírito humano, ou, melhor, o homem integral, corpo e alma. A cada estado ou mudança da alma, corresponde um estado ou mudança do corpo, mesmo que a alma e o corpo não possam agir mutuamente uma sobre o outro, como já se viu.
Não é preciso repetir que, para Spinoza, o homem não é uma substância. A assim chamada alma nada mais é que um conjunto de modos derivados, elementares, do atributo pensamento da substância única. E, igualmente o corpo nada mais é que um complexo de modos derivados, elementares, do atributo extensão da mesma substância. O homem, alma e corpo, é resolvido num complexo de fenômenos psicofísicos.
Mesmo negando a alma e as suas faculdades, Spinoza reconhece várias atividades psíquicas: atividade teorética e atividade prática, cada uma tendo um grau sensível e um grau racional.
A respeito do conhecimento sensível (imaginatio), sustenta Spinoza que é ele inteiramente subjetivo: no sentido de que o conhecimento sensível não representa a natureza da coisa conhecida, mas oferece uma representação em que são fundidas as qualidades do objeto conhecido e do sujeito que conhece e dispõe tais representações numa ordem fragmentária, irracional e incompleta.
Spinoza distingue, pois, o conhecimento racional em dois graus: conhecimento racional universal e conhecimento racional particular. A ordem oferecida pelo conhecimento racional particular nada mais é que a substância divina; abrange ela, na sua unidade racional, os atributos infinitos e os infinitos modos que a determinam. E desse conhecimento racional intuitivo, místico, derivam necessariamente a felicidade e virtude supremas. Das limitações do conhecimento sensível decorrem o sofrimento e a paixão, dada a universal correspondência spinoziana entre teorético e prático.
Visto o paralelismo psicofísico de Spinoza, é claro que o conhecimento, no sistema spinoziano, não é constituído pela relação de adequação entre a mente e a coisa, mas pela relação de adequação da mens do sujeito que conhece a mens do objeto conhecido.
A Moral
Como é sabido, Spinoza dedica ao problema moral e à sua solução os livros III, IV e V da Ethica. No livro III faz ele uma história natural das paixões, isto é, considera as paixões teoricamente, cientificamente, e não moralisticamente. O filósofo deve humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere; assim se exprime Spinoza energicamente no proêmio ao II livro da Ethica. Tal atitude rigidamente científica, em Spinoza, é favorecida pela concepção universalmente determinista da realidade, em virtude da qual o mecanismo das paixões humanas é necessário como o mecanismo físico-matemático, e as paixões podem ser tratadas com a mesma serena indiferença que as linhas, as superfícies, as figuras geométricas.
Depois de nos ter oferecido um sistema do mecanismo das paixões no IV livro da Ethica, Spinoza esclarece precisamente e particularmente a escravidão do homem sujeito às paixões. Essa escravidão depende do erro do conhecimento sensível, pelo que o homem considera as coisas finitas como absolutas e, logo, em choque entre si e com ele. Então a libertação das paixões dependerá do conhecimento racional, verdadeiro; este conhecimento racional não depende, entretanto, do nosso livre-arbítrio, e sim da natureza particular de que somos dotados.
No V e último livro da Ethica, Spinoza esclarece, em especial, a condição do sábio, libertado da escravidão das paixões e da ignorância. O sábio realiza a felicidade e a virtude simultânea e juntamente com o conhecimento racional. Visto que a felicidade depende da ciência, do conhecimento racional intuitivo - que é, em definitivo, o conhecimento das coisas em Deus - o sábio, aí chegado, amará necessariamente a Deus, causa da sua felicidade e poder. Tal amor intelectual de Deus é precisamente o júbilo unido com a causa racional que o produz, Deus. Este amor do homem para com Deus, é retribuído por Deus ao homem; entretanto, não é um amor como o que existe entre duas pessoas, pois a personalidade é excluída da metafísica spinoziana, mas no sentido de que o homem é idêntico panteisticamente a Deus. E, por conseguinte, o amor dos homens para com Deus é idêntico ao amor de Deus para com os homens, que é, pois, o amor de Deus para consigo mesmo (por causa precisamente do panteísmo).
Chegado ao conhecimento e à vida racionais, o sábio vive já na eternidade, no sentido de que tem conhecimento eterno do eterno. A respeito da imortalidade da alma, devemos dizer que é excluída naturalmente por Spinoza como sobrevivência pessoal porquanto pessoa e memória pertencem à imaginação. A imortalidade, então, não poderá ser entendida senão como a eternidade das idéias verdadeiras, que pertencem à substância divina. De sorte que imortais, ou eternas, ou pela máxima parte imortais, serão as almas ou os pensamentos dos sábios, ao passo que às almas e aos pensamentos dos homens vulgares, como que limitados ao conhecimento e à vida sensíveis, é destinado o quase total aniquilamento no sistema racional da substância divina.
A Política e a Religião
Spinoza tratou particularmente do problema político e religioso no Tractatus theologico-politicus. Considera ele o estado e a igreja como meios irracionais para o advento da racionalidade. As ações feitas - ou não feitas - em vista das penas ou dos prêmios temporais e eternos, ameaçados ou prometidos pelo estado e pela igreja, dependem do temor e da esperança, que, segundo Spinoza, são paixões irracionais. Elas, entretanto, servem para a tranquilidade do sábio e para o treinamento do homem vulgar.
No estado de natureza, isto é, antes da organização política, os homens se encontravam em uma guerra perpétua, em uma luta de todos contra todos. É o próprio egoísmo que impede os homens a se unirem, a se acordarem entre si numa espécie de pacto social, pelo qual prometem renunciar a toda violência, auxiliando-se mutuamente. No entanto, não basta o pacto apenas: precisa o homem do arrimo da força para sustentar-se. De fato, mesmo depois do pacto social, os homens não cessam de ser, mais ou menos, irracionais e, portanto, quando lhes fosse cômodo e tivessem a força, violariam, sem mais, o pacto. Nem há quem possa opor-se a eles, a não ser uma força superior, porquanto o direito sem a força não tem eficácia. Então os componentes devem confiar a um poder central a força de que dispõem, dando-lhe a incumbência e o modo de proteger os direitos de cada um. Só então o estado e verdadeiramente constituído. Entretanto, o estado, o governo, o soberano podem fazer tudo o que querem: para isso têm o poder e, portanto, o direito, e se acham eles ainda no estado de pura natureza, do qual os súditos saíram.
O estado, porém, não é dominador supremo, porquanto não é o fim supremo do homem. Seu fim supremo é conhecer a Deus por meio da razão e agir de conformidade, de sorte que será a razão a norma suprema da vida humana. O papel do estado é auxiliar na consecução racional de Deus. Portanto, se o estado se mantivesse na violência e irracionalidade primitivas, pondo obstáculos ao desenvolvimento racional da sociedade, os súditos - quando mais racionais e, logo, mais poderosos do que ele - rebelar-se-ão necessariamente contra ele, e o estado cairá fatalmente. Faltando-lhe a força, faltar-lhe-á também o direito. E de suas ruínas deverá surgir um estado mais conforme à razão. E, assim, Spinoza deduz do estado naturalista o estado racional.
O outro grande instituto irracional a serviço da racionalidade é, segundo Spinoza, a religião, que representaria um sucedâneo da filosofia para o vulgo. O conteúdo da religião positiva, revelada, é racional; mas é a forma que seria absolutamente irracional, pois o conhecimento filosófico de Deus decairia em uma revelação mítica; a ação racional, que deveria derivar do conhecimento racional com a mesma necessidade pela qual a luz emana do sol, decairia no mandamento divino heterônomo, a saber, a religião positiva, revelada, representaria sensivelmente, simbolicamente, de um modo apto para a mentalidade popular, as verdades racionais, filosóficas acerca de Deus e do homem; tais verdades podem aproveitar ao bem desse último, quando encarnadas nos dogmas. Por conseguinte, o que vale nos dogmas não seria a sua formulação exterior, e sim o conteúdo moral; nem se deveria procurar neles sentidos metafísicos arcanos, porque o escopo dos dogmas é essencialmente prático a saber: induzir à submissão a Deus e ao amor ao próximo, na unificação final de tudo e de todos em Deus.
Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF após 23 anos no cargo
A licença médica tirada por Ricardo Teixeira tinha muito mais em jogo. Nesta segunda-feira, o presidente em exercício da CBF, José Maria Marin, anunciou a renúncia de Teixeira como mandatário do futebol nacional depois de 23 anos no poder através de uma carta de despedida. Além disso, o dirigente carioca também deixou o Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014. Os dois órgãos serão presididos a partir de agora por Marin.
"Presidir paixões não é uma tarefa fácil. Futebol em nossos país e associado a duas imagens: talento e desorganização. Quando ganhamos, exaltam o talento. Quando perdemos, a desorganização. Fiz o que estava ao meu alcance. Renunciei à saúde. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias. Deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação de dever cumprido", afirmou na carta Ricardo Teixeira, que promete cuidar da saúde e ficar com sua família, mas se coloca a disposição para continuar colaborando com o futebol brasileiro.
Na semana passada, Ricardo Teixeira pediu licença médica de 60 dias, prazo máximo estipulado pela CBF, e colocou José Maria Marin em seu lugar. Os boatos sobre sua renúncia surgiram há cerca de um mês, mas em reunião realizada há menos de duas semanas Teixeira recebeu apoio das federações.
23 anos no poder - O presidente da mais importante organização esportiva do país trocará a sede da Barra da Tijuca pela nova residência da família em Miami, onde pretende dedicar mais tempo à esposa, Ana Carolina Wingand, à filha Antônia.
Os rumores sobre a saída de Ricardo Teixeira do cargo que ele exerceu com mão de ferro por mais de duas décadas começaram em fevereiro. À medida que novas informações surgiram, a saída parecia mais próxima. Até que, nesta quinta-feira, a notícia tornou-se oficial.
A gestão de Ricardo Teixeira foi marcada pela oposição entre conquistas dentro dos gramados e denúncias fora dele. Nos últimos 23 anos, a seleção brasileira conquistou duas Copas, o país ganhou o direito de sediar um Mundial, e a CBF tornou-se uma instituição rentabilíssima, de contratos multimilionários. E Teixeira viu seu nome envolvido em polêmicas e denúncias.
Depois de sobreviver ao chamado "voo da muamba", após a Copa de 1994, e a duas CPIs, Teixeira conseguiu se reeleger em 2003 e 2007. A escolha do Brasil para sede do Mundial de 2014 ampliou o mandato do dirigente para até 2015.
A partir de 2010, entretanto, o nome do presidente da CBF voltou a estar ligado às páginas policiais. O jornalista escocês Andrew Jennings, da BBC, afirmou que dirigentes fecharam um acordo com a corte de Zug, na Suíça, para não terem seus nomes revelados no caso Fifa-ISL.
Segundo Jennings, o acerto foi feito por Ricardo Teixeira e João Havelange, que teriam recebido propina da ISL, antiga empresa de marketing esportivo parceira da Fifa. Ambos teriam devolvido parte do dinheiro recebido à Justiça, com a condição de não terem seus nomes revelados.
No dia 27 de dezembro de 2011, a Justiça ordenou que a Fifa abrisse em até 30 dias os documentos do caso ISL, o que ainda não aconteceu, mas deve ocorrer nas próximas semanas.
Pesa contra Teixeira, também, a descoberta das relações tortuosas com a empresa Ailanto, investigada por superfaturamento no amistoso entre a seleção brasileira e a de Portugal, em novembro de 2008. O caso foi revelado pela Revista ESPN de setembro de 2011 na quarta-feira, a Folha de S.Paulo divulgou documentos que comprovam a ligação do dirigente com a empresa.
Mudança de planos A saída de Ricardo Teixeira no início de 2012, a dois anos da Copa do Mundo no Brasil, representa uma mudança de planos com relação ao discurso do dirigente. Em entrevista à revista Piauí, de julho de 2011, o presidente havia deixado bem claras suas intenções.
"Em 2014, posso fazer a maldade que for. A maldade mais elástica, mais impensável, mais maquiavélica. Não dar credencial, proibir acesso, mudar horário de jogo. E sabe o que vai acontecer? Nada. Sabe por quê? Porque eu saio em 2015. E aí, acabou", disse Teixeira à repórter Daniela Pinheiro.
No fim daquele mesmo mês de julho, o Rio de Janeiro recebeu o sorteio dos grupos das Eliminatórias da Copa do Mundo. Antes e durante a cerimônia, a presidenta da república, Dilma Rousseff, evitou o mandatário da CBF ela preferiu associar sua imagem à de Pelé, uma das principais atrações da festa.
Desde então, as tentativas de reaproximação entre Ricardo Teixeira e Dilma Rousseff foram frustradas
Em dezembro de 2011, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou que Ricardo Teixeira havia pedido desligamento da entidade máxima do futebol e também do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2014. A movimentação do brasileiro foi interpretada como a desistência definitiva de qualquer pretensão de se candidatar à presidência da Fifa Michael Platini, atual mandatário da Uefa, é o favorito nas próximas eleições.
Em seus 23 anos de CBF, Teixeira não criou um discípulo que pudesse ser apontado como seu substituto natural. De acordo com o estatuto da entidade, assumirá o cargo o vice-presidente mais velho José Maria Marin. Dirigente da velha guarda e ex-candidato à prefeitura de São Paulo, Marin voltou ao noticiário recentemente por colocar no bolso uma das medalhas destinadas aos jogadores do Corinthians na premiação da Copa São Paulo.
Veja a carta de renúncia de Ricardo Teixeira na íntegra:"Ser presidente da CBF durante todos esses anos representou na minha vida uma experiência mágica. O futebol, no Brasil, é mais que esporte, mais que competição. É a paixão que envolve, é o sofrimento que alegra, é a fidelidade que unifica.
Por essas razões, pensei muito na decisão que ora comunico e pensei muito no que dizer sobre minha decisão.
Presidir paixões não é tarefa fácil. Futebol em nosso país é sempre automaticamente associado a duas imagens: talento e desorganização. Quando ganhamos, despertou o talento. Quando perdemos, imperou a desorganização.
Fiz, nestes anos, o que estava ao meu alcance, sacrificando a saúde, renunciando ao insubstituível convívio familiar. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias. Mas isso é muito pouco, pois tive a honra de administrar não somente a Confederação de Futebol mais vencedora do mundo, mas também o que o ser humano tem de mais humano: seus sonhos, seu orgulho, seu sentimento de pertencer a uma grande torcida, que se confunde com o país.
Ao trazer a Copa de 2014, o Brasil conquistou o privilégio de sediar o maior e mais assistido evento do mundo, se inseriu na pauta mundial, alavancou mais a economia e aumentou o orgulho de todo o povo brasileiro.
Tentei, no limite das minhas forças, organizar os talentos. Nas minhas gestões, criamos os campeonatos de pontos corridos e a Copa do Brasil, aumentamos substancialmente as rendas do futebol brasileiro, desenvolvemos o marketing e, principalmente, vencemos.
Hoje, deixo definitivamente a presidência da CBF com a sensação do dever cumprido. Não há sequência de ataques injustos que se rivalizem à felicidade de ver, no rosto dos brasileiros, a alegria da conquista de mais de 100 títulos, entre os quais duas Copas do Mundo, cinco Copas América e três Copas das Confederações. Nada maculará o que foi construído com sacrifício, renúncia e dor.
A mesma paixão que empolga, consome. A injustiça generalizada, machuca. O espírito é forte, mas o corpo paga a conta. Me exige agora cuidar da saúde.
Em obediência ao estatuto da CBF, mais precisamente ao disposto em seu artigo 37, você, meu vice-presidente e ex-governador de São Paulo, José Maria Marin, passa a presidir a CBF. A você, desejo sorte, para que o talento se revele na hora certa; discernimento, para que o futebol brasileiro siga cada vez mais organizado e respeitado; e força, para enfrentar as dificuldades que certamente virão.
Deixo a CBF, mas não deixo a paixão pelo futebol. Até por isso, a partir de hoje e sempre que necessário, coloco-me à disposição da entidade. Reúno-me com mais força à minha família, que entendeu minha missão, apoiou-me sempre e me faz ainda mais feliz.
Agradeço de maneira especial aos presidentes de clubes e das federações estaduais, aos dirigentes e colaboradores da CBF, amigos leais em quem sempre encontrei apoio incondicional para o desempenho de meu trabalho.
À torcida brasileira, meu muito obrigado. Nunca me esquecerei das taças sendo erguidas. Elas estão no coração de cada um de nós. Elas são um pedaço do Brasil."
Ricardo Terra Teixeira
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
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