terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Incertezas
Eis-me aqui
como um grão de milho
que fecundo sob o ventre da terra
espera a chuva e o sol para eclodir,
mas sem ter a certeza que será possível florir.
Eis-me aqui
como um passarinho amedrontado
que tange o ninho querendo voar,
mas pequenino tem medo de arriscar.
Eis-me aqui
como um tolo querendo o mundo mudar
revendo verdades, construindo expectativas
que nem sempre vão nos amparar.
Eis-me aqui
de mãos dada com o tempo,
tempo atroz, nuvens negras
que corrompem nossas almas
e nos devasta sem respeitar a regras.
Eis-me aqui
que sob as trevas pereci,
e das cinzas renasci,
sou fênix, sou frenesi,
sou coisa nenhuma...
A difícil "arte" de ser canhoto
Num documentário da BBC Horizon, o renomado neurologista Norman Geschwind apresenta uma interessante teoria sobre lateralidade, associando-a à testosterona.
Segundo o cientista, precursor da Neurologia Comportamental surgida no início da década de 1970, uma excessiva produção do hormônio masculino retardaria o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro, fazendo com que o direito torne-se dominante. E, como o controle dos lados do corpo é invertido (o hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo e vice-versa), o indivíduo acaba tornando-se um canhoto. Isso explicaria, por exemplo, porque existem mais canhotos do que canhotas.
Em seu interessante artigo, Left-handedness: Association with immune disease, migraine and developmental learning disorders, Geschwind associa, ainda, o menor desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro a alguns consequentes contratempos. Canhotos teriam, por exemplo, maiores chances de desenvolver doenças relacionadas ao sistema imunológico (alergias e alguns tipos de artrite reumatóide), enxaqueca e problemas de aprendizado envolvendo a linguagem (dislexia e gagueira†).
Em oposição a esta teoria biológica, há os que defendem causas ambientais. Em seu livro The Left-Hander Syndrome, o Dr. Stanley Coren diz acreditar que todos somos destros e que algum problema na gestação ou no parto seria responsável pela troca do lado dominante.
Recentemente identificou-se, ainda, um gene associado à probabilidade de uma pessoa ser canhota, embora estime-se que a chance de pais canhotos terem um filho idem seja da ordem de 26%. Desgraçadamente o mesmo gene parece estar ligado, também, a maiores chances de a pessoa desenvolver esquizofrenia - o que explicaria a alta incidência de canhotos com esta patologia.
Fato é que há muitas lendas envolvendo os canhotos, desde a Idade Média onde eles eram considerados bruxos e sofriam as calorosas consequências de sua "preferência" pela parte esquerda do corpo. Até recentemente, muitos canhotos eram forçados a abandonar tal inclinação para se adaptar artificialmente ao mundo dos destros. Até mesmo os termos usados para descrever um canhoto são pejorativos na maioria dos idiomas, reforçando o caráter sinistro (com trocadilho, por favor) com que sempre foram encarados. Não à toa, destreza (no sentido de habilidade) vem de destro...
A maior parte das generalizações que se faz não tem, contudo, qualquer base científica. Tanto é que na eventualidade de uma lesão em algum hemisfério cerebral, o lado não afetado normalmente assume as funções prejudicadas. O fato de haver alguma separação ou especialização lateral serve para multiplicar as possibilidades do cérebro, permitindo maior diversificação, em vez de redundância. Tudo o que a ciência conseguiu mostrar até agora é que ninguém é totalmente inclinado para um único lado.
Que lado faz o quê?
A lateralidade fica evidente em algumas preferências como a mão ou pé mais usados estendendo-se, inclusive, ao olho ou ouvido preferidos. Mas para atividades cognitivas não há regras fixas. Enquanto que 95% dos destros têm suas funções de linguagem localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro, para os canhotos esta proporção fica um pouco acima da metade e aproximadamente um quarto dos canhotos processa a linguagem em ambos os lados. Ainda assim, isso difere de acordo com funções de linguagem específicas, como gramática e vocabulário.
Por outro lado, algumas evidências científicas sustentam a localização do processamento de estímulos visuais e sonoros no lado direito do cérebro, bem como raciocínios ligados à percepção espacial (o que explica a grande incidência de arquitetos canhotos e o sucesso de tenistas canhotos).
Outros experimentos mostram, também, um melhor processamento de novas situações pelo lado direito do cérebro, enquanto que o esquerdo lida particularmente bem com atividades mais corriqueiras.
Algumas especulações são feitas, ainda, tentando relacionar o sucesso (ou a falta dele) à preferência pelo lado do corpo, mas nada de conclusivo foi apontado até então. De um lado, uma pesquisa da década de 1980 mostrou prevalências compatíveis de canhotos tanto nos 15% melhores alunos quanto nos 15% piores alunos de uma Universidade americana, indicando a ausência de diferenças intelectuais significativas.
Mas um recente estudo de Ruebeck, Harrington Jr. e Moffitt (Handedness and Earnings, 2006) mostrou que canhotos com formação universitária ganham aproximadamente 15% mais que seus pares destros. Ainda, se a formação acadêmica for mais elevada, esta diferença pode subir para 26% - embora esta diferença valha apenas para os homens.
Um estudo de Charlotte Fauriet e Michel Raymond (Universidade de Montpellier, na França) lança, contudo, a hipótese de que por uma natural vantagem nos combates físicos (o destro tem dificuldade em antecipar os golpes de um canhoto), os canhotos estariam mais associados à violência. Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva entre as taxas de homicídio e a porcentagem de canhotos em alguns países. Isto é: quanto mais canhotos no país, maior a taxa de homicídio.
Claro que uma correlação destas não significa, necessariamente, causalidade. Ou seja, embora dois fatos ocorram juntos frequentemente, não significa que um seja a causa do outro. Os próprios Fauriet e Raymond argumentam que os canhotos não são mais violentos - eles apenas levam vantagem quando brigam.
Evidências científicas à parte, a verdade é que o canhoto vive num mundo que não é feito para ele. Atividades corriqueiras para um destro podem se transformar em problemas praticamente insolúveis para quem precisa usar a mão esquerda.
Isto ocorre porque a maioria dos instrumentos cotidianos favorecem o uso da mão direita - algo que muitos destros nem sequer se dão conta. Um ótimo exemplo disso é a tesoura. Quando um canhoto segura uma tesoura com a mão esquerda, ele força suas lâminas para fora - e não para dentro, como um destro - dificultando o corte. Além disso, o canhoto não enxerga o que está cortando - o que pode ser realmente perigoso...
Pense, ainda, em uma régua. Para o destro é muito simples e natural traçar uma reta da esquerda para a direita, mas para o canhoto isso significa passar uma mão por cima da outra - o que não é nada prático. Outros exemplos pitorescos são o saca-rolhas, apontador de lápis, carteiras escolares, teclado numérico (fica do lado direito), caderno espiral (a mão que escreve fica em cima da armação de arame), botões da camisa, armas de fogo (a trava do gatilho é do lado direito, assim como a alavanca de liberação do pente de munição), câmeras fotográficas, violões etc.
A consequência disto é que o canhoto precisa encontrar meios de superar tais dificuldades e isto pode levá-lo a desenvolver uma maior capacidade de adaptação a novas situações. Minha teoria - ainda não submetida aos crivos da ciência - é que para as atividades que um canhoto nunca realizou ele deve fazê-las como um destro. Se o canhoto nunca tocou violão na vida, por que inverter a posição do instrumento?
Afinal, a coordenação e o ritmo necessários são resultados de uma habilidade motora fina que ele nunca treinou. (Provavelmente o canhoto Eric Clapton pensou assim, ao contrário de Jimi Hendrix e Paul McCartney.) O mesmo vale para o abridor de latas: por que segurá-lo com a mão esquerda? Ainda assim, para quem insiste em fazê-lo, há lojas especializadas em produtos para canhotos, como a Anything Left-Handed.
Outra curiosidade que observo é que quando uma pessoa identifica um canhoto, quase sempre também é um canhoto. Destros dificilmente prestam atenção nisso. Aliás, destros raramente percebem os canhotos.
Canhotos famosos
Políticos e estadistas: Alexandre o Grande, Napoleão Bonaparte, Benjamin Franklin, Fidel Castro, Gandhi, Bill Clinton, e Barack Obama.
Artistas e escritores: Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Raphael, Beethoven, Mark Twain, Friedrich Nietzsche, Machado de Assis, Tom Cruise, Robert De Niro, David Letterman, Jay Leno, Kurt Cobain, Paul Simon, Steve McQueen, Julia Roberts, Agelina Jolie, Bruce Willis, M.C. Escher, Charles Chaplin, Cole Porter, Marilyn Monroe, George Michael, Jimi Hendrix, Johnny Rotten, Natale Cole, Paul McCartney, Phil Collins, Phil Everly, Robert Plant, e Tony Iommi.
Atletas: John McEnroe, Martina Navratilova, Garrincha, Maradona, Johan Cruyff, Fernando Meligeni, Romário e Ayrton Senna.
Outros: Henry Ford, David Rockefeller e Einstein.
Uma curiosidade é ver alguns personagens canhotos. Por que um autor decide que sua criação usará a mão esquerda? Há algumas explicações: Rocky Balboa era um southpaw por causa da fama que os lutadores que usam a mão esquerda têm de ser imprevisíveis. Já o Neo, de Matrix, provavelmente é canhoto porque Keanu Reeves também o é. Keyser Soze, de Os Suspeitos, usa a mão esquerda por causa de uma aparente deficiência física que afeta o lado direito do seu corpo. Bob Esponja e Dilbert, no entanto, apenas reforçam o estigma de que o canhoto é atrapalhado. Com relação a Bart Simpson, bom, este é um destrabelhado mesmo. Ah, e Leonardo, Michelangelo e Raphael a que me referi lá em cima não são as Tartarugas Ninja...
Mas nem só de bons exemplos orgulham-se os canhotos. Pelos ferimentos de suas vítimas, acredita-se que Jack o Estripador era canhoto, tal como o famoso serial killer Albert de Salvo, o estrangulador de Boston. Assim como John Dillinger, o sanguinário gângster americano do início do século passado e Billy the Kid, o pistoleiro que aterrorizou o faroeste ianque.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
JEFF BUCKLEY - Vida e Obra
Nascido em 17 de novembro de 1966 (Orange County, CA, EUA), Jeffrey Scott Buckley começou a gostar de música desde pequeno. Além de ter sido influenciado pela eclética coleção de discos de sua mãe, Mary Guibert, Jeff herdou os genes musicais de um homem que mal conheceu, o semifamoso cantor dos anos 60, Tim Buckley.
Jeff passou a adolescência ouvindo diversos tipos de música como blues e jazz, mas principalmente rock (suas bandas favoritas, Led Zeppelin, Kiss) e rock progressivo (Genesis, Yes, Rush). Depois de terminar o colegial, ele decide que música seria o caminho a seguir. Com medo de ser comparado a seu pai, em vez de cantar, Jeff decide inicialmente só tocar guitarra, indo estudar no famoso G.I.T (Guitar Institute of Technology). Diversas experiências vieram em seguida: Jeff trabalhou em estúdio, tocou em bandas de funk, jazz e punk e até trabalhou na Banana Republic, de onde foi demitido após ser acusado de roubar uma camiseta.
Em 1991, ao ser convidado a participar de um show tributo a seu finado pai, duas coisas importantes aconteceram: Jeff resolve cantar (coisa que deixou o público boquiaberto) e Jeff conhece o ex-guitarrista da banda Captain Beefheart, Gary Lucas, que impressionado com sua voz, decide convidá-lo para integrar a banda Gods and Monsters. Afiada tanto nas performances ao vivo como nas composições próprias, o Gods and Monsters estava prestes a assinar com uma gravadora, quando Buckley decide abandonar o projeto por achar que um contrato, naquele momento, restringiria suas ambições musicais (Jeff queria, na verdade, ser artista solo).
No ano seguinte, ele começa a se apresentar sozinho (voz e guitarra) num bar nova-iorquino chamado “Sin-é”. Suas performances eram tão impressionantes que não demorou muito para que seus talentos fossem descobertos. Em outubro de 92, ele assina com a Columbia Records para a gravação de seu primeiro álbum solo.
“Grace” chega às lojas em agosto de 1994 e é imediatamente aclamado pela crítica e por artistas como Paul McCartney, Chris Cornell, Bono (“Jeff Buckley é uma gota cristalina num oceano de ruídos”) e Jimmy Page (“Quando o Plant e eu vimos ele tocando na Austrália, ficamos assustados. Foi realmente tocante”). Apesar disso e dos esforços promocionais (longa turnê de dois anos, dois videoclips), “Grace” vendeu muito menos do que o esperado. A música de Buckley era considerada leve demais para as rádios alternativas e pouco comercial para as rádios FM.
Em 1996, ele começa a trabalhar em seu segundo álbum e, contrariando sua gravadora que queria um disco mais comercial, chama Tom Verlaine, do grupo Television, para a produção. Quando as gravações estavam por se encerrar, Jeff, insatisfeito com o resultado, decide que o material não deveria ser lançado e, assim, ele começa a compor novas canções. E é isso que ele faz até maio de 97, quando finalmente chama os integrantes de sua banda para começar as gravações em Memphis, cidade onde morava na época.
No dia 29 de maio de 1997, helicópteros sobrevoavam o Wolf River em busca de uma pessoa que ali havia desaparecido. Segundo relato do amigo Keith Foti, Jeff Buckley resolveu parar para nadar naquele rio antes de se encontrar com sua banda. Depois de alguns minutos, Foti foi até o carro para guardar alguns objetos, enquanto ouvia Jeff nadando e cantarolando “Whole Lotta Love”. Quando voltou, não viu mais nada. Ele gritou por “Jeff” por quase dez minutos e, não obtendo resposta, decidiu chamar a polícia. O corpo de Jeff Buckley foi encontrado só uma semana depois, dia 4 de junho, perto da nascente do rio Mississippi.
O álbum póstumo “Sketches for My Sweetheart the Drunk” foi lançado em 1998. “Sketches” é composto das gravações que Jeff fez com Tom Verlaine mais as músicas nas quais Jeff trabalhava antes de morrer.
Em 2000, “Mystery White Boy” veio relembrar Jeff nas suas performances ao vivo.
Apesar da morte trágica, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos fãs. Artistas como Coldplay, Muse e Radiohead não cansam de mencionar Jeff como suas principais influências. Além disso, “Grace” vem constantemente sendo citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Quem conhece a obra de Jeff Buckley sabe que isso não é exagero.
Documentário:
Fonte: Jeff Buckley - Matérias e Biografias
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
A Homoafetividade No Filme Assunto De Meninas
Introdução
A homoafetividade tem sido tema de discussões e debates na sociedade. Embora não haja respostas sobre o assunto por parte das ciências que estudam a sexualidade humana, a maioria heterossexual trata o homoafetivo como doente, anormal.
A homossexualidade, discursivamente produzida, transforma-se em questão social relevante. A disputa centra-se fundamentalmente em seu significado moral. Enquanto alguns assinalam o caráter desviante, a anormalidade ou a inferioridade do homossexual, outros proclamam sua normalidade e naturalidade. (LOURO, 2001,p.6).
Por isso, os homoafetivos sofrem preconceito, discriminação e até violência de indivíduos ditos homofóbicos. Não raro, os meios de comunicação relatam casos de pessoas vítimas de grupos anti-homoafetivos.
Hoje, a polêmica tem se intensificado devido à pressão de organismos de defesa dos direitos humanos e de organizações de homoafetivos, que lutam por respeito e direitos iguais, como cidadãos.
Por ser um tema que divide opiniões da sociedade, entre os que reconhecem, ou não, os direitos do homoafetivo e estar em evidência no mundo, vamos estudá-lo sob a perspectiva da Análise do Discurso. Que discursos encontramos sobre orientação sexual no filme Assunto de Meninas? Esse trabalho objetiva analisar aspectos do discurso sobre orientação sexual em Assunto de Meninas.
Sendo o tema objeto de controvérsias, esse trabalho constitui um instrumento para a compreensão dos aspectos ideológicos subjacentes a essa discussão. Assim, o leitor adquirirá uma visão crítica da sociedade e poderá fazer análise do discurso em outros filmes e textos.
Fundamentação teórica
A teoria da Análise do Discurso, de linha francesa, baseia-se na Lingüística, no Marxismo e na Psicanálise, e analisa a relação entre ideologia e linguagem, por meio do discurso. Seus conceitos-chave aplicados na análise do filme são: formação ideológica, formação discursiva e discurso.
A formação ideológica caracteriza, segundo Harochi (1971, p. 102):
um elemento (determinado aspecto da luta nos aparelhos) susceptível como uma força confrontada com outras forças na conjuntura ideológica característica de uma formação social em um momento dado: cada formação ideológica constitui assim um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem "individuais" nem "universais" mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classe em conflito umas em relação às outras.
Em Assunto de Meninas, existe um confronto ideológico. Num colégio interno Paulie namora Tori. Essa relação homoafetiva é descoberta quando, com um grupo de amigas, a irmã de Tori vai ao quarto dela e flagra-a deitada com Paulie, nua. Temendo que Allison conte para seus pais e as colegas a chamem de homoafetiva, Tori passa a negar seu namoro com Paulie, que luta para reconquistar a ex-companheira. Há, pois, no filme, uma luta entre o discurso de respeito ao homoafetivo, de Paulie, e o discurso de não-respeito ao homoafetivo, do restante da escola. Essas posições distintas são as formações discursivas.
Para Pêcheux (1997, p. 160), formação discursiva é
aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada (...), determina o que pode e deve ser dito(articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.).
O discurso é uma ação social, um ato de um locutor que possui uma intenção, efeito de sentidos entre locutores, como parte do funcionamento social geral (ORLANDI, 1996).
Quando a diretora do colégio, Vaughn, diz a Paulie que compreende o que ela sente, mas que ela precisa de ajuda, está tentando convencê-la de que está doente e precisa ser tratada, num discurso de não-respeito à homoafetividade.
Metodologia
O filme Assunto de Meninas foi tomado como corpus para esta análise. O tema da homoafetividade foi tomado como formação ideológica, enquanto o respeito e o não respeito a essa orientação sexual foram tomados aqui como duas formações discursivas.
Análise de dados do filme Assunto de Meninas
Formação ideológica
A ideologia é um conjuntos de idéias, atitudes, ações consideradas "naturais", sem justificativa prática que, numa época e lugar, são capazes de gerar posições divergentes e conflitantes.No filme Assunto de Meninas, o tema da homoafetividade constitui uma formação ideológica, como se percebe nas seguintes cenas:
Cena A:
Tori [a Paulie]: - Não sei o que faria sem você. (E se beijam)
Cena B:
Tori: - Em primeiro lugar, seja lá o que estejam dizendo, é mentira. Idiotice.
Colega de classe: - Mesmo que fosse verdade, seria tipo: "E daí? Não se metam".
Tori: - Mas não é verdade.
Colega de classe: - Minha tia é gay. E daí?
Tori: - Mas eu não sou.
Cena C:
Tori [a Mary]: - Sei que pode ser estranho pra você (...) você não conhece meus pais. São muito corretos e religiosos (...). Eu amo a Paulie. Você sabe como eu a amo.
Tori [a Mary]: - Existe uma vida que tenho que viver. O sonho que meu pai e minha mãe têm pra mim. E, mesmo que esteja me matando, nunca mais serei a mesma pessoa com ela. Nunca mais ficarei com ela. Jamais.
Cena D:
Tori e Paulie (em uma noite de amor)
Cena E:
Tori [a sua irmã Allison]: - Ally, adoro meninos, sou louca por garotos.
Nas cenas A, C e D o discurso é o de respeito ao homoafetivo. A personagem Tori diz amar sua parceira e a beija, transa com ela. Nos enunciados seguintes, seu discurso será de negação à homoafetividade, conforme transcrito nas cenas B e E. Na cena C, porém, o conflito ideológico aparece mais evidente. Tori afirma que seus pais são religiosos e teme confrontá-los, pois eles não aceitariam sua orientação sexual. Por isso, embora ame Paulie, nega esse amor e sofre para viver a vida sonhada pelos pais.
Formação discursiva
Todo discurso está ligado a um grupo, a uma instituição, pois pertence a ao coletivo. Segundo Pêcheux (1975), são as formações discursivas que, em uma formação ideológica dada, determinam "o que pode e deve ser dito" a partir de uma posição dada em uma sociedade.
Em Assunto de Meninas, na formação ideológica da orientação sexual, há duas formações discursivas distintas: uma que sustenta o discurso de não-respeito ao homoafetivo e outra que assume o discurso de respeito ao homoafetivo. Nesse trabalho, será enfocada a formação discursiva de não-respeito ao homoafetivo e os princípios subjacentes a essa formação, conforme as seguintes cenas:
·Tori confessa a Mary que ama Paulie e revela por que não pode manter sua relação homoafetiva.
1)Tori [a Mary]: - Sei que pode ser estranho pra você (...) você não conhece meus pais. São muito corretos e religiosos (...). Eu amo a Paulie. Você sabe como eu a amo.
Princípios:
A homoafetividade é estranha.
Pessoas corretas são contra a homoafetividade.
Pessoas religiosas são contra a homoafetividade.
·Paulie pergunta o que Mary acha de Vaughn, insinuando que ela teria um caso com Barnnet.
2) Paulie: - O que você acha da senhorita Vaughn?
Mary: - Ela é legal.
Tori: - Algumas meninas falam mal dela.
Paulie: - Ela e Bannet, com certeza, têm um caso.
Mary: Ela me pareceu legal. Quero dizer...normal.
Princípios:
Os homoafetivos são discriminados.
A homoafetividade é ilegal.
A homoafetividade é anormal.
·Grupo de meninas, após surpreender o casal de lésbicas na cama.
3) Allison [irmã de Tori]: - Que nojento!
Princípio:
A homoafetividade é nojenta.
Vendo sua irmã na cama com outra menina, Allison qualifica o ato de nojento. No uso comum, a palavra nojento significa repulsivo, imundo, repugnante. No discurso de não-respeito ao homoafetivo, a palavra nojento possui o sentido de ato homoafetivo, aquilo que causa náusea, desagradável e que naturalmente deve ser expelido.
Como podemos perceber, pela análise do funcionamento discursivo, as palavras não possuem um sentido literal, mas adquirem sentido apenas no seu uso concreto conforme as posições ideológicas em que são (re)produzidas. No filme Assunto de Meninas, as palavras destacadas nos enunciados possuem sentidos distintos daqueles do uso mais comum em que são empregadas. Conhecendo a situação concreta de seu uso, foi possível compreender seu sentido material, seu caráter ideológico e sua formação discursiva de não-respeito ao homoafetivo.
Considerações finais
Conforme vimos, o tema orientação sexual no filme Assunto de Meninas constitui uma formação ideológica, pois existem nele dois discursos conflitantes, ou seja, duas formações discursivas. O discurso de respeito ao homoafetivo, sustentado até a morte por Paulie, e o discurso de não-respeito ao homoafetivo, que é o predominante. Este discurso baseia-se nos princípios de que a homoafetividade é estranha, proibida, incorreta, feia, anormal, ilegal e nojenta. Além disso, o discurso desrespeitoso considera a homoafetividade uma doença e um problema, acreditando que as pessoas que se interessam por indivíduos do mesmo gênero precisam ser tratadas.
Vimos ainda que as palavras não possuem sentido em si mesmas, mas só o adquirem dentro de determinada formação discursiva. No caso do discurso de não-respeito ao homoafetivo, do qual nos ocupamos, mostramos que palavras corriqueiras como normal e legal, por exemplo, assumem o sentido de fora da norma, fora da lei, algo considerado ilegal e, portanto, crime, passível de punição, pela maioria que reprodutora do discurso dominante.
Referências
BRANDÃO, Helena H. N. Introdução à análise do discurso. 4 ed. Campinas:UNICAMP, 1995.
CARDOSO, Sílvia Helena Barbi. Análise do discurso no ensino do português. Mimeografado
LOURO, GUACIRA LOPES. Teoria queer: uma política pós-identitária para a educação. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 9, n. 2, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2001000200012&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 16 Fev 2007.
ORLANDI, Eni Puccinelli. A linguagem e seu funcionamento. As formas do discurso.4a ed. Campinas, SP: Pontes, 1996.
PÊCHEUX, Michel.Semântica e discurso. Uma crítica à afirmação do óbvio. 3ª ed.Trad. Eni Pulcinelli Orlandi, Lourenço Chacon Jurado Filho, Manoel Luiz. Gonçalves Corrêa e Silvana Mabel Serrani. Campinas (SP): UNICAMP, 1997.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
BLACK SWAN - CISNE NEGRO
Filme do diretor americano Darren Aronofsky: mesmo diretor de O Lutador (2008), onde um lutador de luta livre em decadência, com grande sofrimento psíquico, luta para vencer suas angústias e a dependência em anabolizantes. Dirigiu também PI (1998), que relata a evolução de um quadro de esquizofrenia e Réquiem para um sonho, que conta a história de personagens dependentes de substâncias químicas e suas superações.
Em Black Swan (2010) Natalie Portman interpreta a bailarina infantil e inocente Nina Sayers, única filha de uma bailarina aposentada e frustrada (Barbara Hershey) em sua vida amorosa e profissional.
Elencada para interpretar Odete em O Lago dos Cisnes (Tchaikovsky), Nina carrega as mesmas características da personagem no momento que interpreta o cisne branco. Insegura, pueril, submissa e presa à sua condição angelical.
Na peça, Odete é encantada por um feitiço e se transforma em um lindo cisne branco, porém muito triste. Apenas o amor exclusivo do príncipe poderia desfazer o feitiço. A cor branca é sempre associada tanto a ausência quanto a possibilidade de preenchimento e transformação. É uma cor "de passagem", usada em rituais onde a pessoa que usa irá sofrer grande transformação.
O filme enfoca a relação doentia de interdependência entre mãe e filha e suas consequências desastrosas. A principal tarefa de Nina e de qualquer um que se encontre ligado simbioticamente a alguém é "desmisturar-se" para poder se encontrar. E essa separação pode doer demais.
A questão simbiótica envolve a pele, já que esta representa a fronteira entre o que está dentro e fora.
Na relação simbiótica não há limites ou fronteiras e todos os sentimentos e sensações são muito parecidos e sintonizados. A tentativa de separação pode ser encarada como alta traição por um dos "misturados". Essa crise pode levar a extremos. Muitos crimes passionais e suicídios surgem deste drama. A sensação experimentada pelos envolvidos pode ser de mutilação emocional e chegar a um nível insuportável. Nina vive este drama de maneira psicótica, sentindo sua pele romper ora com espinhos, ora com a tentativa de suas asas saírem pela pele. Ela precisava alçar voo, libertar-se, tal como o cisne branco. Este voo a levará ao inevitável e preciso cisne negro.
O cisne negro precisava ser vivido por Nina em sua vida pessoal. Ele representa o inverso. Assim como o branco é dia, o inverso do negro, que representa a noite e suas profundidades. Um representa o conhecimento e outro a ignorância. O conhecido, elaborado e o selvagem inexplorado. É preciso vencer o lado negro, sombra, para que haja a transformação.
Nesse momento surge a personagem de Mila Kunis, colega de ensaios. Sua presença a encanta e assusta, já que esta vive e representa sua sombra, seu lado obscuro, pouco mostrado no dia a dia e pouco acessível inclusive a ela. Podemos pensar nesse encontro como este que devemos realizar constantemente entre nossas polaridades.
Durante os ensaios da peça Nina tem experiências com sua sexualidade, dor e angústia, entregando-se, finalmente, às vivências desse lado sombra.
O cisne negro toma o lugar do branco pouco a pouco. Personagem e bailarina se misturam. É desesperador. O self pede espaço, vem como uma força da natureza enquanto o cordão umbilical que está ligado à mãe começa a se desprender. A sensação é de morte eminente. O cisne negro a havia dominado.
Ao executar o ato final, Nina interpreta perfeitamente tanto o cisne branco quanto o negro, que integra seu lado agressivo, que irá impulsioná-la a suicidar-se, matar seu lado submisso e renascer como pessoa inteira, simbolicamente.
Este processo é fundamental para todos nós. Esse exercício de separação-união entre o eu-social, eu com a família, eu que cumpro leis e aquele eu selvagem, agressivo, perigoso, salvador e vital. Caso esse lado seja desconhecido, abandonado, negado, pode assumir formas monstruosas e avassaladoras. Aí, em vez de haver uma integração, ocorre a destruição, pelo poder da força acumulada e represada.
O grande perigo dessa busca pela nossa sombra reside na perda de si próprio. Ao encarnar o cisne negro, Nina impõe morte ao seu corpo. Precisamos "descer" com cuidado, iluminar a caverna escura aos poucos, com técnica, precisão (aspectos egoicos, do eu com o mundo) sem deixar a intuição e a percepção de lado (motivações inconscientes e não conscientes).
A descida ao desconhecido deve ser feita. O salto para morte tem que ser dado quantas vezes for preciso. A coragem para enfrentar essa dureza da vida é o combustível para que se viva plenamente.
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