Num documentário da BBC Horizon, o renomado neurologista Norman Geschwind apresenta uma interessante teoria sobre lateralidade, associando-a à testosterona.
Segundo o cientista, precursor da Neurologia Comportamental surgida no início da década de 1970, uma excessiva produção do hormônio masculino retardaria o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro, fazendo com que o direito torne-se dominante. E, como o controle dos lados do corpo é invertido (o hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo e vice-versa), o indivíduo acaba tornando-se um canhoto. Isso explicaria, por exemplo, porque existem mais canhotos do que canhotas.
Em seu interessante artigo, Left-handedness: Association with immune disease, migraine and developmental learning disorders, Geschwind associa, ainda, o menor desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro a alguns consequentes contratempos. Canhotos teriam, por exemplo, maiores chances de desenvolver doenças relacionadas ao sistema imunológico (alergias e alguns tipos de artrite reumatóide), enxaqueca e problemas de aprendizado envolvendo a linguagem (dislexia e gagueira†).
Em oposição a esta teoria biológica, há os que defendem causas ambientais. Em seu livro The Left-Hander Syndrome, o Dr. Stanley Coren diz acreditar que todos somos destros e que algum problema na gestação ou no parto seria responsável pela troca do lado dominante.
Recentemente identificou-se, ainda, um gene associado à probabilidade de uma pessoa ser canhota, embora estime-se que a chance de pais canhotos terem um filho idem seja da ordem de 26%. Desgraçadamente o mesmo gene parece estar ligado, também, a maiores chances de a pessoa desenvolver esquizofrenia - o que explicaria a alta incidência de canhotos com esta patologia.
Fato é que há muitas lendas envolvendo os canhotos, desde a Idade Média onde eles eram considerados bruxos e sofriam as calorosas consequências de sua "preferência" pela parte esquerda do corpo. Até recentemente, muitos canhotos eram forçados a abandonar tal inclinação para se adaptar artificialmente ao mundo dos destros. Até mesmo os termos usados para descrever um canhoto são pejorativos na maioria dos idiomas, reforçando o caráter sinistro (com trocadilho, por favor) com que sempre foram encarados. Não à toa, destreza (no sentido de habilidade) vem de destro...
A maior parte das generalizações que se faz não tem, contudo, qualquer base científica. Tanto é que na eventualidade de uma lesão em algum hemisfério cerebral, o lado não afetado normalmente assume as funções prejudicadas. O fato de haver alguma separação ou especialização lateral serve para multiplicar as possibilidades do cérebro, permitindo maior diversificação, em vez de redundância. Tudo o que a ciência conseguiu mostrar até agora é que ninguém é totalmente inclinado para um único lado.
Que lado faz o quê?
A lateralidade fica evidente em algumas preferências como a mão ou pé mais usados estendendo-se, inclusive, ao olho ou ouvido preferidos. Mas para atividades cognitivas não há regras fixas. Enquanto que 95% dos destros têm suas funções de linguagem localizadas no hemisfério esquerdo do cérebro, para os canhotos esta proporção fica um pouco acima da metade e aproximadamente um quarto dos canhotos processa a linguagem em ambos os lados. Ainda assim, isso difere de acordo com funções de linguagem específicas, como gramática e vocabulário.
Por outro lado, algumas evidências científicas sustentam a localização do processamento de estímulos visuais e sonoros no lado direito do cérebro, bem como raciocínios ligados à percepção espacial (o que explica a grande incidência de arquitetos canhotos e o sucesso de tenistas canhotos).
Outros experimentos mostram, também, um melhor processamento de novas situações pelo lado direito do cérebro, enquanto que o esquerdo lida particularmente bem com atividades mais corriqueiras.
Algumas especulações são feitas, ainda, tentando relacionar o sucesso (ou a falta dele) à preferência pelo lado do corpo, mas nada de conclusivo foi apontado até então. De um lado, uma pesquisa da década de 1980 mostrou prevalências compatíveis de canhotos tanto nos 15% melhores alunos quanto nos 15% piores alunos de uma Universidade americana, indicando a ausência de diferenças intelectuais significativas.
Mas um recente estudo de Ruebeck, Harrington Jr. e Moffitt (Handedness and Earnings, 2006) mostrou que canhotos com formação universitária ganham aproximadamente 15% mais que seus pares destros. Ainda, se a formação acadêmica for mais elevada, esta diferença pode subir para 26% - embora esta diferença valha apenas para os homens.
Um estudo de Charlotte Fauriet e Michel Raymond (Universidade de Montpellier, na França) lança, contudo, a hipótese de que por uma natural vantagem nos combates físicos (o destro tem dificuldade em antecipar os golpes de um canhoto), os canhotos estariam mais associados à violência. Os pesquisadores encontraram uma correlação positiva entre as taxas de homicídio e a porcentagem de canhotos em alguns países. Isto é: quanto mais canhotos no país, maior a taxa de homicídio.
Claro que uma correlação destas não significa, necessariamente, causalidade. Ou seja, embora dois fatos ocorram juntos frequentemente, não significa que um seja a causa do outro. Os próprios Fauriet e Raymond argumentam que os canhotos não são mais violentos - eles apenas levam vantagem quando brigam.
Evidências científicas à parte, a verdade é que o canhoto vive num mundo que não é feito para ele. Atividades corriqueiras para um destro podem se transformar em problemas praticamente insolúveis para quem precisa usar a mão esquerda.
Isto ocorre porque a maioria dos instrumentos cotidianos favorecem o uso da mão direita - algo que muitos destros nem sequer se dão conta. Um ótimo exemplo disso é a tesoura. Quando um canhoto segura uma tesoura com a mão esquerda, ele força suas lâminas para fora - e não para dentro, como um destro - dificultando o corte. Além disso, o canhoto não enxerga o que está cortando - o que pode ser realmente perigoso...
Pense, ainda, em uma régua. Para o destro é muito simples e natural traçar uma reta da esquerda para a direita, mas para o canhoto isso significa passar uma mão por cima da outra - o que não é nada prático. Outros exemplos pitorescos são o saca-rolhas, apontador de lápis, carteiras escolares, teclado numérico (fica do lado direito), caderno espiral (a mão que escreve fica em cima da armação de arame), botões da camisa, armas de fogo (a trava do gatilho é do lado direito, assim como a alavanca de liberação do pente de munição), câmeras fotográficas, violões etc.
A consequência disto é que o canhoto precisa encontrar meios de superar tais dificuldades e isto pode levá-lo a desenvolver uma maior capacidade de adaptação a novas situações. Minha teoria - ainda não submetida aos crivos da ciência - é que para as atividades que um canhoto nunca realizou ele deve fazê-las como um destro. Se o canhoto nunca tocou violão na vida, por que inverter a posição do instrumento?
Afinal, a coordenação e o ritmo necessários são resultados de uma habilidade motora fina que ele nunca treinou. (Provavelmente o canhoto Eric Clapton pensou assim, ao contrário de Jimi Hendrix e Paul McCartney.) O mesmo vale para o abridor de latas: por que segurá-lo com a mão esquerda? Ainda assim, para quem insiste em fazê-lo, há lojas especializadas em produtos para canhotos, como a Anything Left-Handed.
Outra curiosidade que observo é que quando uma pessoa identifica um canhoto, quase sempre também é um canhoto. Destros dificilmente prestam atenção nisso. Aliás, destros raramente percebem os canhotos.
Canhotos famosos
Políticos e estadistas: Alexandre o Grande, Napoleão Bonaparte, Benjamin Franklin, Fidel Castro, Gandhi, Bill Clinton, e Barack Obama.
Artistas e escritores: Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Raphael, Beethoven, Mark Twain, Friedrich Nietzsche, Machado de Assis, Tom Cruise, Robert De Niro, David Letterman, Jay Leno, Kurt Cobain, Paul Simon, Steve McQueen, Julia Roberts, Agelina Jolie, Bruce Willis, M.C. Escher, Charles Chaplin, Cole Porter, Marilyn Monroe, George Michael, Jimi Hendrix, Johnny Rotten, Natale Cole, Paul McCartney, Phil Collins, Phil Everly, Robert Plant, e Tony Iommi.
Atletas: John McEnroe, Martina Navratilova, Garrincha, Maradona, Johan Cruyff, Fernando Meligeni, Romário e Ayrton Senna.
Outros: Henry Ford, David Rockefeller e Einstein.
Uma curiosidade é ver alguns personagens canhotos. Por que um autor decide que sua criação usará a mão esquerda? Há algumas explicações: Rocky Balboa era um southpaw por causa da fama que os lutadores que usam a mão esquerda têm de ser imprevisíveis. Já o Neo, de Matrix, provavelmente é canhoto porque Keanu Reeves também o é. Keyser Soze, de Os Suspeitos, usa a mão esquerda por causa de uma aparente deficiência física que afeta o lado direito do seu corpo. Bob Esponja e Dilbert, no entanto, apenas reforçam o estigma de que o canhoto é atrapalhado. Com relação a Bart Simpson, bom, este é um destrabelhado mesmo. Ah, e Leonardo, Michelangelo e Raphael a que me referi lá em cima não são as Tartarugas Ninja...
Mas nem só de bons exemplos orgulham-se os canhotos. Pelos ferimentos de suas vítimas, acredita-se que Jack o Estripador era canhoto, tal como o famoso serial killer Albert de Salvo, o estrangulador de Boston. Assim como John Dillinger, o sanguinário gângster americano do início do século passado e Billy the Kid, o pistoleiro que aterrorizou o faroeste ianque.

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