De acordo com a obra Psicanálise dos Contos de Fadas, o autor psicólogo-infantil Bruno Bettelheim diz que, para dominar problemas psicológicos do crescimento, como decepções narcisistas, dilemas edipianos, rivalidades fraternas etc, a criança precisa entender o que está passando dentro de seu eu consciente para que também possa enfrentar o que se passa em seu inconsciente. Seguindo a linha de objetivo dos contos de fadas, as obras a seguir cuidam desse tema de maneira quase imperceptível, mas que têm um papel importante na formação do caráter.
Toy Story
A trilogia da Pixar é uma análise sobre o fim da infância. A sensação dúbia que crescer nos proporciona “perda e conquista”, ao mesmo tempo.
No começo do primeiro filme Woody é o brinquedo preferido de Andy, um homem da lei, uma figura de autoridade entre os demais. No entanto, Buzz, um novo brinquedo mais moderno e divertido, chega e toma o seu lugar. Woody é uma espécie de pai entre os brinquedos, um protetor, que assegura que tudo ficará em seu lugar. (Vale ressaltar aqui que este acontecimento se renova no último filme, quando Andy vai à faculdade, e tem que se desapegar de algumas coisas. Nossos pais são um tesouro querido, mas também precisamos deixá-los para poder crescer.)
Buzz, no primeiro filme, acha que é um astronauta. No segundo, vê que existem vários deles (enquanto Woody descobre ser único e valioso). No terceiro, é reprogramado e volta a acreditar que é um astronauta. Ou seja, Buzz ensina o começo, meio e fim, para a ponte entre o imaginário e o real que criamos quando criança muitas vezes. Pode ser interpretada também como a questão de “ser ou não ser”, a dúvida que há em descobrir no que somos bom, o que realmente gostamos, e até mesmo o que seremos quando crescer.
No Toy Story 3, vemos Andy guardar todas suas lembranças numa caixa (seus brinquedos). Ele não brinca mais com nenhum, admite que não precisa mais deles, no entanto, mesmo assim, não quer abandoná-los, pois desse jeito tem a confortante ideia de que um dia poderá voltar à infância.
Curiosidade: Em seus desenhos, é comum a criança errar a posição das partes do corpo humano. O Senhor Cabeça de Batata é a representação disso. Fazer-se, desfazer-se é só uma brincadeira, mas também pode representar um pesadelo: a sensação de se “desconfigurar” é uma forma de angústia diante do abandono pelos pais, por exemplo.
Shrek
Shrek é um conto de fada às avessas, mas isso não causou a rejeição do público, pelo contrário: abriu novos aspectos para as crianças se identificarem. Toda criança é um pouco nojenta, e mesmo assim merece amor.
As falhas do ogro faz com que as crianças se sintam representadas em seus defeitos. Afinal, todo mundo solta pum, arrota, tem seus momentos rabugentos etc. Até mesmo as meninas, elas querem ser princesas (clássicas), mas sabem que escondem uma ogra como a Fiona e gostam de ter uma exemplificação disso.
O Burro é a personificação da criança, essencialmente. Acompanha Shrek (uma figura maior e que tem um objetivo), faz perguntas espontâneas constantemente (e surpreendentemente lógicas!), reclama por comida, não presta muita atenção às missões – tal qual fazemos quando crianças ao precisarmos acompanhar nossos pais em uma tarefa qualquer.
O Dragão (fêmea) ao se revelar apaixonada pelo Burro, ele por sua vez se aterroriza, como quando uma criança faria se uma enorme senhora a assediasse. Mas no fim, acabam aceitando esse amor. Isso é uma amostra do espírito de tolerância dos novos tempos, quando casamentos diferentes são bem-vindos.
No final do primeiro filme, Fiona escolhe ser uma ogra. Toda filha é uma princesa, para as famílias contemporâneas, são cercadas de mimo e atenção. Mas ao entrar na adolescência, elas vão perdendo esse teor puro e perfeito para se tornar “meio ogra”, dessa forma, rompendo o antigo papel e trilhando o próprio caminho. É uma reafirmação de autenticidade.
Curiosidade: o gato é uma pequena exemplificação da lógica dos contos modernos. Ora é amigo, ora é aliado; você pode mudar de lado e nada e o que parece ser.
Ursinho Pooh
As situações e ações do carismático e meigo Ursinho Pooh funcionam como um tradutor da lógica das crianças.
Quem já assistiu os desenhos/filmes de Pooh sabe muito bem como ele se comporta: sempre falando alto, narrando e cantando os acontecimentos. Ele entende as figuras de linguagem de maneira literal (“ao pé da letra”, por exemplo, é um pé mesmo). Tal como as crianças, ele confunde o real e o imaginário.
Leitão, Tigrão e Bisonho também seriam personificações de crianças (claro, cada uma com um jeito diferente). Leitão impressiona-se facilmente, sempre com interjeições e adjetivos; esse seria sua forma de entender o perigo lá fora. Tigrão sempre agitado e querendo chamar atenção. E Bisonho seria aquela criança mais exclusa, que se sente ignorada pelos adultos.
Ao contrário desses, temos Abel e Corujão. Abel é uma autoridade, ocupado com sua horta e sua casa, o coelho às vezes tenta reprimir o jeitão bagunceiro de seus amigos – seria, então, um pai ou mãe. Corujão do mesmo jeito, só que ele é mais desligado, às vezes preso em suas lembranças do passado, sempre à procura de um público – dessa forma, ele seria o avô, o qual muitas vezes consultamos as sabedorias.
Curiosidade: outro ponto interessante a se revelar é que cada personagem possui um defeito ou doença. Vemos o Leitão, sempre preocupado e nervoso (Ansiedade); o Bisonho, o burro, que nunca está feliz, é melancólico e não tem ânimo para fazer nada (Depressão); Pooh, que sempre está querendo comer mel, não importa a hora (Desordem Alimentar); o Corujão, sempre se gabando e querendo mostrar seus conhecimentos (Narcisismo); o Tigrão, sempre agitado, o contrário de Bisonho, não consegue prestar atenção em nada (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade); Abel, o coelho, que se preocupa com pequenas coisas, se zanga fácil, é muito metódico e possessivo (Transtorno Obsessivo Compulsivo); e, por fim, o garoto, Christopher, poderia muito bem ser louco (Esquizofrenia). Creio que este último não é lá muito certo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário